sexta-feira, 27 de abril de 2012

Alguns Minutos - Crônica

Restaurantes são ótimos lugares para se observar as pessoas. Não que eu queira ficar olhando quem come assim ou assado, diga-se. Mas é tanto trejeito; tantas as formas e caras e bocas que se fundem neste delicioso lugar de gastronomia e de pesquisa científica que é quase impossível não aproveitar desta benesse.
Estava eu a almoçar, ou melhor, tomar um lanhe num restaurante de um Supermercado local quando me deparei com a cena de uma bela mulher em seu momento de mastigação.
A bela devia ter entre 40 e 50 anos de idade. Estatura mediana. Cabelos negros longos, até a altura do meio das costas e bem escovados. Pele morena. Usava Jeans. Sapato de salto. E uma bata num tom de vinho meio clara. Definitivamente uma bela mulher.
E lá estava eu observando a mulher a sorver seus alimentos com toda graça e todo encanto dignos de uma Dama.
De repente, uma garfada num bocado de comida. Incrivelmente levados na altura dos lábios sem derramar sequer um grão de arroz. A abertura da boca parecia sincronizada com o abrir dos olhos e com os cabelos, cuja franja caíra levemente para frente. Os maxilares forçando os dentes a triturar a comida dentro da boca. E mesmo assim ela mantinha o batom intacto. E ainda sorria com os olhos para o “maledeto” que estava sentado à sua frente. Um careca com cara de mafioso. Jeito de mafioso. E vestido qual mafioso... ”Maledeto”.
Mas a pior parte ainda estava por vir. Foi quando fui obrigado a ver a bela sorver seu suco de laranja. O copo estava um pouco à frente do prato e tinha uma pedra de gelo e um canudinho colorido. Pois ela pegou o copo com a mão direita e, com a mão esquerda, o canudinho colorido. Pareceu-me mesmo que estava vendo tudo aquilo em câmera lenta. O copo com suco de laranja e gelo e o canudinho lentamente indo em direção àqueles lábios grossos e vermelhos. Depois do encontro entre os lábios e o canudinho, o sorver do líquido, e as bochechas que estavam relaxadas agora tinham que esforçarem-se para ajudar a puxar o suco.
E a tortura estava longe de seu término. Pois esses restaurantes ainda servem a tal sobremesa. E a ela não iria deixar de provar um belo pedaço de pudim, óbvio. Então se levanta. Vai até o local onde estão as sobremesas. E, para minha surpresa, nada pega.
As horas foram passando. Meu lanche feito de bagueta, com cenoura ralada, alface, tomate e peito de peru ainda estavam pela metade. Acho que fiquei tão alucinado em vê-la comendo que esqueci completamente de cuidar de mim mesmo.
Voltei a comer.
Quando levantei e fui até o caixa para pagar o que havia consumido, percebi que na fila, na minha frente, estava a tal morena.
Estranho dizer isso, mas em pé, parada agora em minha frente, não me pareceu tão interessante olhar para ela. Refleti brevemente sobre isso! Acho que a cena daquela bela mulher comendo surpreendeu-me por uns instantes, mais nada. Como quando você vai ao Shopping Center e fica olhando as vitrines e babando por produtos inatingíveis...
Mas como agora já estávamos indo, entrando numa fila tão comum a todos que lá estavam, tudo voltou ao normal. Pude então perceber que a ilusão que criei foi um deleite!  Apenas por alguns minutos!    


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Frangueiro - Crônica



Vida de goleiro não é fácil. Ainda mais neste País chamado Brasil, onde as discrepâncias reinam em todos os segmentos. Todos os lugares possíveis e imaginários. É o País das diferenças e dos diferentes. Daqueles que tudo podem e daqueles que “quase” tudo podem e também daqueles que nada podem... É Brasil.
Não se sabe ao certo quando apareceu o termo “tomar um frango” ou “levar um frango”. Apenas se sabe que a frase, diga-se genial, advém do fato de o galináceo em questão passar com certa facilidade por entre as pernas daquele que, já agachado, quase de cócoras, esteja querendo agarrá-lo. Eis o fato. É a história que se conta por aí...
Pois veja só. Inúmeras vezes estes solitários heróis (... ou bandidos?) ficam à mercê de um lance destes numa partida de futebol. E, óbvio, quando “o frango passa” por entre as pernas do atleta... Bem, nem preciso dizer o coro que se forma nas arquibancadas. Frangueiro, frangueiro, frangueiro... Triste sina essa!
Fico imaginando as mães dos “meninos” goleiros guerreiros. Oh! Quanta desventura! O filhinho querido tendo que ouvir aquele coro e, muitas vezes, seguido de palavrões que não vou ousar citar nestas breves linhas.
Não bastasse a tormenta da partida em si, depois de um “frangão”, o boleiro ainda tem pela frente o “Batalhão de Fuzilamento da Imprensa”. Sim, senhoras e senhores! Ela vem. Chega, faz e acontece. Vem de Câmeras; de Luzes; de Repórteres; de Críticos e “tal e cousa e lousa e maripousa...”.
Diante da Imprensa, olhando para as Câmeras, nossos “bandidos”, cabisbaixos, tentam dizer, ou explicar, como aconteceu o fato tão desastroso de sua carreira. Tentam e, geralmente, nunca conseguem. Sempre fica algo vago no ar... Uma cisma. Um esquecimento que soa meio que desatento no momento da entrevista. É uma situação deveras incomoda e requer malícia, porém, os mais novos, coitados, estes não tem chance alguma... São “crucificados” em público, literalmente.
Outra dura estatística fica por conta da história do atleta. Contada nas ruas pelo povo. Pelos críticos de plantão. Pelas conversas de boteco regadas a muita cerveja gelada, cachaça e porções de batata frita... (uma pausa para minha “água na boca”).
O distinto atleta será sempre lembrado por aquele momento único de sua vida. Seu primeiro brinquedo ficará esquecido na memória. Suas figurinhas. Seus heróis da TV. Seu primeiro beijo quiçá. A primeira namorada... Nada disso. O “frango” é poderoso. Não há limites para a lembrança que alcance o “frango” em toda sua plenitude.
Mesmo em sua velhice! Este cidadão outrora gozava de físico privilegiado. Alguns tinham cabelos longos. Outros tinham o famoso “rostinho de anjo”. E ainda outros poderiam até, com o devido treinamento, serem artistas de TV, tamanha beleza e simpatia que gozavam junto ao público feminino... Mais mesmo assim, com todos esses atributos... seriam “frangueiros”...
Bem, como tudo nesse mundo é perfeitamente efêmero, o que é, diga-se, algo a ser louvável por todos nós, posto que a perpetuidade não seja motivo de jubilo, e sim de saudosismo, muitas vezes até demagogo, melhor acreditar que, um dia, depois de muito tempo, aquele “frango” vai perecer, junto com seus protagonistas. E nem os arquivos mais modernos hão de guardar aquele momento mágico, numa tarde qualquer, de um belo domingo, em que, jogando pelas finais de um Campeonato, nosso tão querido goleiro “pegou um frango”.        



quinta-feira, 12 de abril de 2012

Aprendiz II - Poesia



Eu queria te dizer algo de bom!
Te dizer que gostei do que vivi!
Que vivi o que senti junto de ti!

Eu queria te dizer algo de bom!
Te dizer que parti para longe de ti!
Porque em ti eu quase me perdi...

Eu queria te dizer algo de bom!
Te dizer que morri um dia aqui!
Que um dia qualquer aqui eu te pedi!

Eu queria te dizer algo de bom!
Te dizer que em teu beijo eu sofri!
Sofri, porque depois tive o que não mereci!

Eu queria te dizer algo de bom!
Te dizer agora que mudei afinal!
Que o passado já não é mais o meu quintal!

Eu queria te dizer algo de bom!
Te dizer que reconheço minha falta!
Mas que agora nesta vida nada me falta!

Eu queria te dizer algo de bom!
Te dizer que eu pude te querer!
E que nada poderia me deter...

Eu queria te dizer algo de bom!
Te dizer coisas gostosas de aprendiz!
Mas que só te fariam ainda mais infeliz!



quinta-feira, 5 de abril de 2012

Desejo - Poesia


Desejo é do dia-a-dia e a imensidão da alma;
Fotografia. Imagem. Vertigem. Loucura... Vontade!
Desejo é a distração numa noite de pura escuridão!
É a incógnita da matemática que busca a razão...

Desejo é perene e não há remédio que cure!
Há ferida. Há estímulo. Há infortúnio. Há querer...
Desejo é da carne que nunca morre sem razão!
É a mazela na penumbra num quarto sombrio!

Desejo... Eu sei, é eterno inimigo do coração!
É a forma mais rude de repressão!
Desejo não mensura a idéia e nem o lugar...
Totalmente livre para ir e vir. Anarquista é!

Desejo é a forja que molda no fogo nosso caminhar!
É a corda do Bung Jump que, um dia, vai estourar!
Desejo pede compromisso alheio para complicar!
É a partida e o ponto final das Estações de Trem!

Desejo é. Vem. Está. Sempre a nos acompanhar!
É mestre na arte de mascarar nossos medos!
Desejo pede a morte da mais bela flor do campo...
É mistério. É fuga. É alento... É desejo...