sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Cenas da Vida Parte I Conto




Cena I

Da janela do 11º andar a moça olha para os carros que passam pela movimentada avenida do centro de São Paulo. Uma lágrima solitária lhe salta os olhos. Pensa então em como as luzes dos carros vistas do ponto em que está têm o brilho das estrelas. Seus cabelos são longos e claros. Os olhos, um tom verde. Uma tatuagem em forma de uma borboleta na parte lombar de seu belo corpo, logo acima da linha da cintura, dá-lhe um toque de sensualidade a mais! Em seus pensamentos estão às pessoas do trabalho, do seu dia a dia, como secretária executiva de uma conceituada empresa da região metropolitana. Também lhe vêm em pensamento seus familiares, Pai, Mãe, e um Irmão de criação... O paquera da internet também tem lá a sua vez. Um rapaz de olhar triste, porém dono de um discurso interessante, que conhecera já há alguns dias. Por alguns instantes pensa em mudar de idéia, em casar e ter filhos com o rapaz de olhos tristes, mas apenas por alguns instantes...

Cena II

Jogava vídeo game com mais dois amigos quando tudo aconteceu. Quando a polícia chegou encontrou os corpos dos três rapazes em decúbito dorsal. Certamente foram executados após alguns instantes de conversa, provavelmente tentando evitar que suas vidas fossem ceifadas de forma tão prematura e da maneira mais vil que se possa imaginar. Os tiros foram todos apontados para as cabeças dos rapazes. Haviam várias cápsulas deflagradas no local, misturadas ao sangue que ainda fresco no chão da sala. A reportagem chegou ao exato momento em que os corpos estavam sendo retirados já acomodados em sacos mortuários. Duas emissoras deram cobertura ao caso e a matéria será exibida nos telejornais vespertinos.

Cena III

Ele juntou alguns cacarecos aqui e outros acolá para construir seu veículo “cata bagulhos”. Morador de rua há muitos anos, quando percebeu a nova onda de negócios, não desperdiçou a chance.  Montou assim uma espécie de carroça que ele próprio conduzia puxando-a para cima e baixo nas ruas da cidade. Onde via lixo acumulado parava e fazia uma seleção do que se podia aproveitar para venda. Uma cachorra apelidada carinhosamente por ele de Nenê acompanhava-o em todos os lugares. Durante as noites dormiam juntos enrolados num cobertor velho e sujo. A carroça estava sempre cheia de papelão e outros materiais de fácil combustão.  Na fria noite de inverno, alguns garotos voltavam para casa depois de uma noite regada a bebidas e drogas. Passaram bem próximos da carroça. Embaixo estavam enrolados na coberta os dois amigos inseparáveis. Um dos garotos acendeu um cigarro...


Cena IV

Recentemente aposentado, após anos de labuta numa empresa fabricante de peças automotivas, resolveu que iria fazer aquela viagem dos seus sonhos. Comprou passagem, ida e volta. Deixou reservado hotel cinco estrelas. Comunicou aos familiares que iria ficar uma semana fora. Uma semana, segundo suas palavras, merecidíssima. Foi às compras antes da viagem. Comprou de tudo um pouco, calças e camisas, camisetas, shorts, sandálias, cuecas, e até perfume importado. Uma boa máquina fotográfica também era necessária e acabou mesmo entrando na lista de compras do dia. Passara o dia na rua. O sol escaldante lhe consumindo as energias. Mas ele estava feliz e sorridente. Encontrava os amigos e falava eufórico sobre a viagem que faria na próxima a semana e todos o abraçavam e sorriam... Quando a noite caiu, pôs-se a dormir! Sonho: Ele está numa praia paradisíaca de águas claras e corais de recife. As ondas são relativamente calmas. O dia está ensolarado e há uma brisa gostosa lhe acariciando a face. Aos poucos ele avança para mar adentro. Um tubarão surge, mas não tem como sair da água, pois está muito longe da praia...        



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Cafetina - Conto


A garota devia ter tenros dezoito anos de idade, não mais que isso. A pele clara. Os cabelos negros. Uma pinta na coxa esquerda, logo acima do joelho, em forma de amora. Os lábios generosos. Altura mediana e devia pesar uns 62 quilos, aproximadamente. A patroa, como era chamada, chegou no horário combinado, gostava de pontualidade britânica. Na sala de estar um carpete. O piso de madeira brilhante. As paredes na cor rosa claro. Já o teto ostentava um branco em tom de neve. As poltronas espaçosas com almofadas aconchegantes eram um convite ao relaxar-se. “As banhistas”, de “Renoir”, enfeitavam as paredes e, ao mesmo tempo, proporcionavam um clima de antiguidade mesmo com aquela placa indicativa de que ali havia rede para uso da Internet Wi-fi. A moça ficou meio sem graça a princípio,mas depois de alguns minutos de conversa já estava mais à vontade e falava sobre sua vida com tranqüilidade, explicando que o pai fora baleado numa Boate dessas freqüentadas por todos os tipo de pessoas, de beira de estrada. A mãe cuidara dela até os cinco anos e depois de conhecer outro homem por qual se apaixonara, a deixou com a avó materna que cuidou dela até há pouco tempo atrás, quando falecera vítima de um infarto fulminante. Disse-lhe que sua experiência sexual era meio que recente. Que, para ganhar a vida, trabalhou em uma lanchonete, e que nessa lanchonete se encantara com o cozinheiro, um homem bem mais velho, casado e que,naquele momento, vivia uma crise conjugal. Foi com ele que deixara de ser virgem. Mas que aprendera muito mesmo com um jovem rapaz entregador de pizzas.  Disse que o jovem era agitado e falava muito. Que gostava de música e de filmes. Fumava e bebia regularmente. E que era aficionado por filmes pornográficos. Relatou assim algumas passagens sobre o sexo que fazia com o rapaz entregador de pizzas, enquanto a patroa apenas ouvia a conversa e com os olhos acompanhava os gestos da garota buscando interpretar se toda aquela conversa era verídica ou não. A patroa levantou-se e chamou a garota. Caminharam por um corredor longo cujos pisos eram de madeira brilhante e carpete, nas paredes, quadros com imagens de mulheres nuas. Havia várias portas e o silêncio imperava. Chegando a frente à porta de número 27, parou, abriu-a, e mostrou o quarto em que a garota passaria a usar, mas antes de ir-se recomendou discrição máxima e pediu empenho total para que todos os clientes que lá fossem pudessem sair de lá satisfeitos. A garota sorriu.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Entrando no Clima - Conto




É segunda e está chovendo torrencialmente. São 23h00min. Na favela, um dos barracos feitos de caibro, pedaços de telhas de amianto, placas de propaganda de um político qualquer da eleição passada, e outros materiais encontrados nos entulhos da vida, escondem um temido traficante de drogas. Alguém bate à porta. Um jovem de classe alta, bem trajado, apesar de estar respingado pela chuva, surge na penumbra do barraco e está acompanhado de dois comparsas do traficante. O jovem está segurando uma bolsa. Ele a abre e mostra certa quantia de dinheiro ao traficante. Este por sua vez apanha uma peça em formato de tijolo com dimensões um pouco maiores. Ambos nada dizem um ao outro. Sequer os comparsas esboçam dizer qualquer coisa que seja. Então o jovem vira-se e sai...

Terça feira. 14h30min. A chuva cessou por alguns instantes. E a garota aproveita para levar o cachorro ao passeio. Ela não precisa sair de casa, pios está numa mansão de jardim gigantesco e bem arborizado. O cão refestela-se. Há espaço, grama aparada e verdinha, flores de várias espécies, algumas coloridas e outras apenas esbanjando suas folhas coloridas. Após as chuvas as gotículas de água escorrem pelas folhas e pingam lentamente como conta gotas de um frasco de remédio. Por trás dos arbustos, próximo de uma cachoeira artificial que fica nos fundos do jardim, uma cobra desliza sobre as pedras sem fazer alarde... Novamente a chuva cai.

Quarta feira. Por volta de 15h02min. A motocicleta segue pela via expressa da cidade em alta velocidade. A distância a ser percorrida, para ela, nada importava naquele momento, tampouco se estava a mais de cem quilômetros por hora, nada disso. Ela queria mesmo era sentir a brisa do verão. Queria era correr contra o tempo. Queria o ardor do ar batendo em seu corpo desprotegido que estava de roupas adequadas e de equipamentos de segurança individuais.  – Dane-se! Ela pensou. Por uma fração de segundos ela pensou no ex-marido, nas crianças, duas meninas, uma com seis e outra com três aninhos. Pensou no emprego e na casa. Pensou numa deliciosa barra de chocolate. Por uma fração de segundos pensou que poderia escapar da chuva...

Quinta feira logo após o almoço. Deitado em sua cama e já com idade bem avançada, ele aproveita o horário para descansar. Enquanto descansa tem um sonho. “Ele é bem mais jovem. Está com os cabelos longos e usa um cavanhaque. Acompanhado de uma bela mulher ele caminha pelas ruas da cidade. Por onde passa as pessoas reparam no casal. Ela também usa cabelos longos, possui olhos grandes e negros. Ambos usam vestes de um tempo em que os jovens buscavam mais liberdade. Liberdade para poder demonstrar seus sentimentos. Liberdade para expressar suas ideais. Liberdade para escolher seus próprios caminhos.” De repente ele acorda, os pingos da chuva batem na janela incansavelmente...

Sexta feira.  O dia amanhece chovendo. Há nuvens escuras por toda a cidade. O serviço de meteorologia aparece na TV e avisa que o final de semana será de chuva em todo o Estado, que virão seguidas de rajadas de vento e de trovoadas e relâmpagos. Nas imagens da TV o repórter está com uma capa de chuva e com botas apropriadas. O trânsito, sendo ele, está caótico. Diversos pontos da cidade estão com alagamentos. Áreas de encosta estão sendo monitoradas pelos responsáveis, pois há risco iminente de desabamentos, com prováveis feridos e mortos. Os serviços de emergência estão em alerta máximo... Na favela, um dos barracos feitos de caibro, pedaços de telhas de amianto, placas de propaganda de um político qualquer da eleição passada...