quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Rei Lagarto - Conto





Levou um tempo para perceber que estava acordado e não sonhando. Olhou para o espelho. Estava com coloração verde bem escura. Os olhos vermelhos. Escamas cobriam todo seu corpo. Um lagarto.  A língua longa e bifurcada saia e entrava da boca com certa rapidez. E ele podia sentir pela ponta da língua sabores e odores diferenciados. Estava com fome e pôs-se a caminhar lentamente em direção à cozinha da casa. A língua buscava sentir onde encontrar o alimento precioso. Chegou a frente à geladeira. Abriu a porta com dificuldade, mas achou com facilidade os ovos dispostos na porta em local apropriado, encaixados em uma base com contornos que eram quase a metade de um ovo. Comeu todos os doze ovos.
Com o estômago cheio voltou para o quarto e olhou para o espelho. Viu novamente um lagarto. O medo percorreu seu corpo. Mas ao mesmo tempo ficou feliz. Era forte. Músculos vigorosos. Uma bela língua bifurcada e comprida... A libido lhe veio sem aviso. Encontrar uma fêmea ele queria. Pegou no telefone com a ponta das unhas compridas e discou para um classificado de jornal que oferecia lindas mulheres e muito prazer. A atendente de voz lânguida anotou o endereço e disse que em minutos estaria lá. A campainha tocou. Lindíssima. Cabelos negros. Olhos grandes e azuis. Um pouco baixa na estatura, ele julgou. Mas com lindos e empinados seios marcados na camiseta colada no corpo. As coxas grossas. Um belo traseiro completava aquela doce criatura de modo quase perfeito.  Ela achou estranho o jeito dele se portar e de falar com a língua meio que presa entre os dentes.  Mas não tinha o hábito de questionar seus clientes e nem suas manias. Apenas fazia o seu melhor proporcionando-lhes prazer, por um preço justo... Ambos foram para o quarto. Depois de algumas horas estavam deitados na cama olhando-se sem nada dizer. Uma mistura de odores no ar exalava suor humano e algo parecido com o cheiro de um réptil. Nesse calar ficaram até o fim da noite. Adormeceram. Sonharam. E só acordaram no outro dia. Olhos assustados. Coração acelerado. Ambos nus. Ela expunha uma tatuagem de Dragão Chinês na panturrilha da perna esquerda. Ele a sua pinta de nascença de cerca de 5 cm de diâmetro, parecendo uma amora, no glúteo, bem no canto direito na parte mais baixa, próximo à virilha. Era manhã de sábado. A garota fora embora e não esboçou nenhuma palavra ou cobrança. Ele por sua vez limitou-se a acompanhá-la até a porta de saída. Também nada disse... Foi até a cozinha e pôs uma xícara de café quente sobre a mesa. Depois, ligou a TV, para ver as notícias matinais. Lembrou-se que, aos sábados, joga futebol com os amigos mais chegados num bairro próximo. Foi ao quarto. A bagunça estava por toda a parte. Lençol no chão. Travesseiros amassados. As roupas no chão. E aquele odor insuportável não saia de suas narinas... Olhou-se no espelho. Viu que havia rugas no rosto e lembrou-se dos tempos em que não ligava para a idade. Mas conteve-se, afinal, agora, mais experiente, podia dar o melhor de si. Sentia-se especial...




           

Sino Tibetano - Conto






Acordou as 03h00minh da matina. Foi ao banheiro para despejar o líquido preso da bexiga com a cara sonolenta. Depois foi a cozinha para hidratar novamente com um belo copo cheio d' água. Enfim voltou para o quarto e deitou-se.  A janela estava aberta e ventava. Lá fora, no quintal, havia um varal e num dos suportes havia um sino tibetano pendurado. O resultado era um som gracioso conforme o vento movimentava os tubinhos de metal de um lado para o outro. Uma melodia digna de canção de ninar!

Sonho número I: 
 Ele está sentado numa mesa de bar e bebe cerveja gelada com alguns amigos. Um homem mal vestido e de barba por fazer chega próximo à mesa e pede algum trocado... Mas é logo puxado pelos seguranças e a mesa toda volta a beber e a conversar sem dar importância ao fato.

O som do sino tibetano ainda está agradável e, apesar das nuvens negras indicarem as chuvas próximas, ele continua dormindo e sonhando...           

 Sonho número II: 
Abraçado com sua namorada junto ao portão de entrada da casa da garota. Beijos vigorosos. O esfregar dos tecidos. Ela usa saia e ele  jeans. A força dos movimentos e os abraços sem direção... Respiração ofegante. Bocas furiosas e olhos fechados para não ver além dos sentidos.           

Agora o vento está mais forte e o som do sino tibetano aumenta de intensidade. O barulho fica estridente e não é mais delicado aos ouvidos noturnos.

Sonho número III:
Ele corre do bandido. Não consegue lembrar-se de como tudo começou e nem porque está correndo tanto. Mas sabe que não pode parar, pois o bandido está em seu encalço. A respiração está cada vez mais difícil... E o bandido cada vez mais perto e ele ouve os passos e o coração está batendo mais forte mais forte mais forte...

Acorda assustado então. Vai ao banheiro para despejar o líquido preso da bexiga com a cara sonolenta e o coração agitado. Depois vai a cozinha para hidratar novamente com um belo copo cheio d' água com açúcar. Enfim volta para o quarto e deita-se. O som do sino tibetano não é mais agradável e as nuvens negras indicam chuvas próximas. O sono vai-se. Ele tenta em vão dormir novamente. São 05h00min. Daqui a pouco ele vai ter levantar-se para mais um dia de trabalho. A chuva chega com tempestade. Barulho de trovões atravessa as paredes do quarto e cobrem todo espaço. Ele não consegue fechar os olhos e relaxar. Mas a canseira vence trovão... 

Sonho número IV:
Ele levanta para mais um dia de trabalho. Vai ao banheiro. Vai à cozinha. Vai ao quintal. Vê o sino tibetano balançando lentamente sem fazer o mínimo barulho. O sol desponta por trás da serra. Os pássaros fazem arruaça para receber o novo dia. Então ele lembra que é domingo e não segunda feira e volta a dormir...   

A chuva e a tempestade cessaram. Ele acordou com o despertar do celular. Olhou as horas e viu que estava atrasado novamente. O chefe com certeza ia lhe dar outro sermão. Na correria para não chegar ainda mais atrasado ficou sem degustar o café da manhã. E quando do isso acontecia ele tinha fortes dores de estômago... 

                         


Galo Matreiro - Crônica


Imagine um galo. Mas não um galo qualquer. Um galo imponente. Grande. Vistoso. O bico pontiagudo. Penas coloridas. Umas na cor preta. Ouras na cor de terra. Outras ainda na cor branca. Todas com aquele brilho parecendo a verniz. As papas no pescoço e a crista na cabeça, bem avermelhadas, davam-lhe um ar ainda mais imponente. Também tinha “esporas” enormes e bem afiadas nas canelas robustas.  Seu reduto era um espaço de alguns metros quadrados num Sítio no bairro da “Boa Vereda”. Um bom caminho para aqueles que preferem ainda os ares do campo. Um lugar recheado de mistérios.  Diz à lenda que um cavaleiro de capa longa preta e chapéu cavalgam por aquele lugar durante as madrugadas. E há quem jure ter visto o tal cavaleiro apeando do seu cavalo e indo em direção à capela de Santo Expedito. Para que? Ninguém se atreve a dizer ou comentar... Também tem um ribeirão que percorre corta todos os Sítios por onde passa. E todos aproveitam dessa benesse. Afinal, em dias de calor, as crianças divertem-se em suas águas frescas e cristalinas. Também é usado para irrigar as hortas; para dar de beber as Vacas; Cavalos; Patos... Além, é claro, dos animais selvagens, como Juritis; Garças; Pacas... e tantos outros. Dona Dita mora lá há muitos anos. Faz a comida para toda família no velho fogão à lenha feito de barro. E seus pratos são um sucesso. O bolo de fubá; a galinha caipira com polenta; o café que fica num bule sobre a chapa de ferro quente; os refogados de abobrinha; a Cambuquira... Os doces de abóbora; de moranga com coco; e tantas delícias que ela aprendera com mãe ainda quando menina. De criação simples, D. Dita aprendeu cedo a cuidar da lida da casa. A preparar pratos gostosos. A costurar. A ter paciência com crianças pequenas. A ser uma mulher dedicada à família como sua mãe fora por toda sua vida... Nas madrugadas há silêncio na escuridão. E o silêncio é quebrado em partes distintas, ora pelo som das águas do ribeirão; ora pelo pio das corujas... Pelo mugido de uma vaca desatenta... Quiçá pelo relinchar do cavalo azarão... Mas o mais provável é que o silêncio seja quebrado pelo cantar de um galo matreiro... Mas o galo, o velho galo cantador, vivia num mundo de modos antigos. Não entendia de certas coisas modernas que apareciam aqui e acolá, mexendo e remexendo naquele velho bairro cheio de histórias e de lendas e de pessoas comuns... Numa manhã de um dia destes qualquer estava o galo a ciscar pelos caminhos Boa Vereda, mas eis que surge um veículo escolar e atropela o galináceo. Não lhe fizeram enterro descente. Tampouco lhe fizeram orações. Na verdade ele ficou estirado no chão com o corpo todo amassado pelo peso do tal veículo... As noites na Boa Vereda não são mais as mesmas. O silêncio da madrugada é eterno e sufocante. Nada é capaz de substituir o som do gargarejar daquele velho galo matreiro. Dizem os mais velhos, aqueles que conheciam o velho galo, que ele ainda está lá enfiado nas matas das encostas daquele lugar. E que, se ficar bem quietinho, logo pela manhã, é possível ouvi-lo cantando...

            





terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Árvore e o Rio - Conto



Eis a história.
E que acreditem aqueles que quiserem, ou por entender ser verdade, ou por pena deste em sua mais completa insanidade. Que havia uma árvore nascida às margens de um caudaloso rio. Um rio que cortava várias cidades e era extenso e poderoso e todos o temiam. Um rio recheado de peixes como Bagres, Pacus; Lambaris; Cascudos; Tilápias; Carás; Curimbatás; Mandis... e até Carpas. Um rio que servia também aos pássaros, como as Gaivotas e Socós. E que ainda dava de beber a milhares de seres humanos, posto que, por onde passava, deixava que levassem uma boa quantidade de água para as Estações de Tratamento de Água. Ora, essa pequenina árvore deu de se apaixonar pelo rio de águas lamacentas. E foi crescendo à sua margem e quanto mais crescia mais apaixonada ficava... A árvore fora criada em um talude de terra batida por onde suas raízes fincaram-se dando-lhe a base para poder se erguer com segurança. Tinha muitas vizinhas e os animais buscavam a sua sobra para abrigar-se do sol escaldante. As árvores vizinhas tentavam em vão dissuadi-la dessa loucura. Diziam que apenas paixão e que era passageira a emoção de seu coração. Por vezes tentaram, mas não conseguiram sequer ouvidos, pois ela estava mesmo decida a se entregar aos braços daquele vigoroso rio! E o tempo ia passando e ela ia crescendo. E seu amor pelo rio só fazia por aumentar cada vez mais. Ficava por horas e horas olhando aquelas águas corrente e se imaginava debruçada sobre tudo aquilo. Podia até sentir aquele friozinho das águas tocando as folhas e os galhos de sua frondosa copa, percorrendo o tronco até chegar às raízes mais profundas e atingir o clímax... elixir de todos os amantes. Mas a natureza... bem a natureza tem lá suas regras. E não consta nas regras que uma árvore pode ter relações tão íntimas com um rio. E foi pela reflexão e pela dor da distância que os separavam que a árvore resolveu que iria ao encontro de seu amor, por bem ou por mal.  Traçou um plano ousado e perigoso para tanto. Combinou com as árvores vizinhas que na primeira tempestade que viesse, com ajuda delas, iria deitar-se ao máximo para poder arrancar as raízes da terra e, com o peso de sua copa, cair de vez nas águas de seu amado.Depois de traçado o plano, e com o dia já se retirando para dar lugar a sua irmã noite, a árvore adormeceu junto com suas amigas. Logo pela manhã do dia seguinte, uma tempestade resolveu aproximar-se. Seria aquela a tempestade. Não havia tempo a perder. A árvore, percebendo que o tempo alterado traria ventos fortes, pôs-se a se deixar mais leve. Seus galhos pareciam querer que os ventos os curvassem. Com a chegada da tempestade vieram raios; trovões; e uma chuva como nunca antes caíra naquele lugar. A árvore balançava-se para trás e para frente tentando ao máximo romper-se das raízes da terra. E quando mais ela se desesperava, mais as amigas queriam lhe ajudar. E começaram a balançar para trás e para frente para poder bater com seus galhos no tronco da amiga e ajudá-la com isso a se desprender da terra. De repente um raio caiu e partiu o tronco da árvore ao meio. A potência do rio foi tamanha que uma parte ficou no barranco em chamas e a outra parte caída nas águas do rio. E suas amigas ficaram em pânico, pois nada podiam fazer para ajudá-la. Como as chuvas não cessavam, aos poucos as chamas foram se apagando. E parte que ficara no barranco estava queimada e parte com as folhas e galhos retorcidos pela violência da tempestade. A outra parte ficou dentro do rio. E dentro rio permaneceu por muito e muito tempo. Suas folhas foram soltando-se na correnteza e eram levadas a longas distâncias num redemoinho sem fim. Seu tronco foi aos poucos tomando lugar mais próximo ao barranco de onde lhe restavam ainda poucas raízes. O rio continua seu trajeto. Contorna meandros através das encostas. Cobre as áreas de várzea em dias ininterruptos de chuva. Ele, o rio, continua, porque sabe bem seu destino e irá passar qualquer obstáculo para atingir as águas do velho mar. que tanto almeja!