Levou
um tempo para perceber que estava acordado e não sonhando. Olhou para o
espelho. Estava com coloração verde bem escura. Os olhos vermelhos. Escamas
cobriam todo seu corpo. Um lagarto. A língua longa e bifurcada saia e
entrava da boca com certa rapidez. E ele podia sentir pela ponta da língua
sabores e odores diferenciados. Estava com fome e pôs-se a caminhar lentamente
em direção à cozinha da casa. A língua buscava sentir onde encontrar o alimento
precioso. Chegou a frente à geladeira. Abriu a porta com
dificuldade, mas achou com facilidade os ovos dispostos na porta em local
apropriado, encaixados em uma base com contornos que eram quase a metade de um
ovo. Comeu todos os doze ovos.
Com o
estômago cheio voltou para o quarto e olhou para o espelho. Viu novamente um
lagarto. O medo percorreu seu corpo. Mas ao mesmo tempo ficou feliz. Era forte.
Músculos vigorosos. Uma bela língua bifurcada e comprida... A libido lhe veio
sem aviso. Encontrar
uma fêmea ele queria. Pegou no telefone com a ponta das unhas compridas e
discou para um classificado de jornal que oferecia lindas mulheres e muito
prazer. A atendente de voz lânguida anotou o endereço e disse que em minutos
estaria lá. A campainha tocou. Lindíssima. Cabelos
negros. Olhos grandes e azuis. Um pouco baixa na estatura, ele julgou. Mas com
lindos e empinados seios marcados na camiseta colada no corpo. As coxas
grossas. Um belo traseiro completava aquela doce criatura de modo quase
perfeito. Ela achou
estranho o jeito dele se portar e de falar com a língua meio que presa entre os
dentes. Mas não tinha o
hábito de questionar seus clientes e nem suas manias. Apenas fazia o seu melhor
proporcionando-lhes prazer, por um preço justo... Ambos foram para o quarto.
Depois de algumas horas estavam deitados na cama olhando-se sem nada dizer. Uma
mistura de odores no ar exalava suor humano e algo parecido com o cheiro de um
réptil. Nesse calar
ficaram até o fim da noite. Adormeceram. Sonharam. E só acordaram no outro dia.
Olhos assustados. Coração acelerado. Ambos nus. Ela expunha uma tatuagem de
Dragão Chinês na panturrilha da perna esquerda. Ele a sua pinta de nascença de
cerca de 5 cm de diâmetro, parecendo uma amora, no glúteo, bem no canto direito
na parte mais baixa, próximo à virilha. Era
manhã de sábado. A garota fora embora e não esboçou nenhuma
palavra ou cobrança. Ele por sua vez limitou-se a acompanhá-la até a porta de
saída. Também nada disse... Foi até a cozinha e pôs uma xícara de café quente
sobre a mesa. Depois, ligou a TV, para ver as notícias matinais. Lembrou-se
que, aos sábados, joga futebol com os amigos mais chegados num bairro próximo.
Foi ao quarto. A bagunça estava por toda a parte. Lençol no chão.
Travesseiros amassados. As roupas no chão. E aquele odor insuportável não saia
de suas narinas... Olhou-se no espelho. Viu que havia rugas no rosto e
lembrou-se dos tempos em que não ligava para a idade. Mas conteve-se, afinal,
agora, mais experiente, podia dar o melhor de si. Sentia-se especial...

