sexta-feira, 30 de março de 2012

Aprendiz - Poesia


Eu ainda ouço a mesma música diversas vezes;
Ainda durmo apreensivo com a escuridão do quarto...
Eu ainda tenho sonhos de menino e caio da cama...
Ainda tenho aquele bilhete em que você diz “adeus”...

Eu ainda gosto de sorvete aos domingos à tarde!
Ainda jogo futebol com os amigos, despretensiosamente...
Eu ainda saio e vou a bares para um bom bate-papo!
Ainda paquero garotas que, como você, são inatingíveis!

Eu ainda penduro no varal a minha toalha molhada...
Ainda como sanduíches engordurados aos domingos à noite!
Eu ainda bebo até cair quando estou enjoado de tudo...
Ainda enfrento o novo dia mesmo com as dores de cabeça...

Eu ainda sinto que sou muito jovem para morrer...
Ainda vejo-me muito velho para começar novos projetos!
Eu ainda sou o mesmo homem, o mesmo menino...
Ainda não aprendi a conviver com a inveja, com o ódio!

Eu ainda leio bons livros sobre histórias irreais;
Ainda me deleito com as poesias com interesse duvidoso.
Eu ainda vivo intensamente o meu reinado...
Ainda sou o súdito de meus prazeres mais mortais!

Eu ainda tenho fotos guardadas na caixa de sapatos!
Ainda perco horas olhando-as para tentar entender!...
Eu ainda faço sexo comigo mesmo no banheiro...
Ainda penso em você nesse breve momento de prazer...

Eu ainda tomo remédios para dores de cabeça...
Ainda me sirvo de uma bula para entender o meu corpo;
Eu ainda posso viver mais ou menos bem nesse mundo...
Ainda tenho toda uma vida para aprender, quem sabe, a viver!




quarta-feira, 28 de março de 2012

Mendigos do Futuro - Crônica

.



Tenho saudades de quando eu tinha meus tenros dez anos de idade. Era o ano de 1974.   As crianças brincavam na rua do bairro que ficava um pouco afastado do centro da cidade.
Era a época das Pipas; das Bolinhas de Gude; dos Balões; de brincadeiras como o Pique – Esconde; Pega Ladrão; Bandido e Mocinho; Passa Anel... E tantas outras brincadeiras que a lembrança não conseguiu guardar com tanto carinho...  
Vivíamos num local tranqüilo e ainda não havia pavimentação nas ruas, apenas cascalho, e era comuns, inclusive, aqueles tropeços com o dedão do pé que sempre lascavam as unhas e causavam muitas dores.
Lembro-me da mãe sofrendo para passar o tal de “mertiolate” no ferimento. Aquele remédio queimava muito e a gente pedia “pelo amor de Deus” para que alguém soprasse o local que, além da dor de estar machucado, agora estava queimando em brasa...
Naquela época, além de usar o mertiolate, usava-se também a sulfa para ajudar na cicatrização das feridas. Em poucos dias já se via uma “casca” sobre o ferimento e era muito comum também aquela “casca” acabar sendo retirada de forma abrupta, pois as crianças não param nunca de brincar e a tendência natural era mesmo que os machucados remontassem uns sobre os outros...
Bem, também era comum naquela época ver mendigos perambulando pelos  bairros atrás de comida; de alguma roupa surrada que não mais se usava; ou de algum trocado; este último mais escasso e difícil de obter...
Geralmente eram homens. Negros. Usavam roupas maltrapilhas. Também eram chamados de bêbados. E por incrível que possa parecer era também comum vê-los usando aquelas varetas, postas sobre os ombros para carregar trouxas de roupa e outros apetrechos de viagem, parecia que estávamos vendo alguma imagem de um livro ilustrado, passando diante de nossos inocentes olhos...
Historias eram contadas sobre estes homens “sem eira e nem beira”, como se dizia na época. A maior parte delas relatava que aqueles homens eram maus. Que pegavam as crianças que não obedeciam aos pais e as levavam para longe de suas casas. O medo imperava quando víamos que algum mendigo se aproximava... Afinal pairava sobre eles todo infortúnio desse mundo!
Daquela época para os dias atuais muito mudou.
O Mundo Moderno é cheio de regalias e de privilégios. Muita comida. Muita bebida. Roupas. Carros com todo conforto e econômicos. Gêneros de todos os tipos para todos os gostos. Mas também é cheio de mazelas e, algumas delas, inclusive, dignas de pena, posto ser a degradação dos seres humanos. 
Hoje em dia é muito difícil ver alguém mendigando nas ruas pelos mesmos motivos. Porém não é  tão incomum ver pedintes de dinheiro. São os “mendigos do futuro”.
São as pessoas que vagam pelas ruas das Megalópoles e das cidadezinhas do interior do Estado, tanto da área urbana quanto da área rural,  em busca de trocados. São meninos e meninas; homens e mulheres, em busca de dinheiro para atender ao vício. O vício do CRACK.  Em busca da satisfação que a droga traz estas pessoas são capazes de fazer qualquer coisa... Literalmente.
Vendo os atuais mendigos, às vezes, sinto saudades daquela época.
 Nós não tínhamos à época as regalias de que dispomos hoje, é bem verdade, mas também não tínhamos pessoas vagando pelas ruas atrás de dinheiro para sustentar um vício tão pernicioso e tão destrutivo, que destrói famílias inteiras, deixando-as à deriva e mexendo com a sociedade a ponto de se ter programas governamentais específicos para cuidar deste problema tão letal que acomete praticamente o Mundo. Saudades...

           
           

segunda-feira, 26 de março de 2012

Segurança - Conto


Cauê. Esse era o nome que a mãe dera ao menino. Nasceu Cauê para crescer e ser criado pela avó, pois a mãe falecera quando ele ainda tinha poucos meses de vida, vítima de bala perdida num confronto entre traficantes e policias lá no Morro dos Macacos.
Com apenas dezesseis anos já era um dos “soldados” do tráfico lá do morro. Passava os dias e as noites a vigiar os pontos de tráfico de drogas. Era alto. Chamava a atenção por ter braços muito fortes, apesar da pouca idade. Era de cor parda e vivia de olhos bem abertos. No “trabalho” era conhecido pelo temperamento forte. Era comum vê-lo envolvido em brigas mesmo por pouquíssimos que fossem os motivos da desavença...   
Há tempos ele não sabia o que era dormir bem. Tampouco sabia o que era comer bem. Só sabia que tinha que vigiar e atirar sem excitar quando necessário fosse.
Como era um bom “soldado” ostentava um belo colar de prata no peito, anéis e tinha até umas tatuagens espalhadas pelo corpo. Um “Dragão Chinês” na panturrilha esquerda. Uma “Tribal” nas costas na altura do ombro do lado direito. E uma no antebraço esquerdo, lado inferior, com o nome da sua amada, Michele.  
Dizia que iriam se casar. Dava-lhe presentes caros. Colares de prata, de ouro... Joias. Pagou, inclusive, tatuagem na região lombar, na altura do cóccix da garota e mandou escrever em letras góticas seu nome, dizendo que era por amor, mas os amigos mais próximos sabiam que ele só queria “marcar” seu território... Ninguém mexe com garota marcada por tatuagem de traficante.             
A polícia subiu o morro num destes dias de sol quente e de praia.            
Neste dia morreu um homem chamado José de Almeida, o “Zé Formiga”. Gente boa. Era casado e tinha dois filhos com a Maria da Penha. Trabalhava na construção civil como Auxiliar de Pedreiro. Gostava de futebol e não perdia um jogo de seu time do coração. Freqüentava Terreiro de Umbanda. Era um homem simples de hábitos simples.
Como sempre alguém morria no confronto entre policiais e traficantes e as pessoas foram se acostumando com este tipo de tragédia anunciada. Mesmo os noticiários de TV não ficavam mais mirando os holofotes para essas mortes corriqueiras...
Michele deu de querer ficar com outro rapaz.
Flertou com Lúcio, o “Ferrugem”. E esse rapaz era de outra facção criminosa que não se dava com o pessoal do Cauê.
Não demorou a informação chegar aos ouvidos de Cauê. Jurou vingança. Disse que mataria tanto Michele como o tal de “Ferrugem”. O clima ficou tenso por alguns dias. Cauê caiu em desgraça. Bebeu e usou muita droga para “esquecer”, segundo ele próprio, a vadia da Michele.
Mas o destino é impiedoso e não escolhe esse ou aquele vai morrer. Apenas faz a sua parte e dá novos contornos às histórias de vida das pessoas, indistintamente.
A polícia novamente invadiu o morro. Desta vez veio com o apoio do Exército. Homens bem treinados portando armas de grosso calibre subiram as ruas do morro em busca de traficantes, drogas e de armas.
No confronto, morreram Cauê e Lúcio, o “Ferrugem”. Muitos quilos de droga foram encontrados. Armas e munição pesada. Coletes à prova de bala.
Os jornais deram destaque principalmente à ação coordenada entre as duas forças de segurança pública.
Michele soube da morte de ambos. Não deu importância e sequer chorou segundo uma amiga íntima. Tinha ganhado dos dois rapazes muitos presentes. Era jovem e bonita. E só precisava encontrar outro rapaz apaixonado para ter uma vida boa, cheia de regalias e de segurança, principalmente de segurança, algo tão escasso nos dias de hoje!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Café da manhã - Conto


O rapaz estava com sua namorada num Café. Era manhã de Sábado e o dia estava ensolarado. Enquanto degustavam o delicioso cafezinho com chantili; ora conversavam amenidades, ora observavam as pessoas que adentravam ao local, ora se olhavam com ares de pura cumplicidade... Resolveram comprar um jornal.

Manchete. Primeira página. 

Rapaz brasileiro, estudante, de apenas 21 anos, morto pelos policiais da cidade de Sidney, na Austrália, com tiros de pistolas elétricas, e, ao que parece, porque teria furtando um pacote de bolachas... ”  
Voltam a se olhar por alguns instantes. Havia mais de cinco anos que estavam juntos e nada, absolutamente nada, os fazia brigar. Sequer uma única vez. Sempre havia um equilíbrio. Algo que um ou outro dizia ou fazia para amenizar qualquer possível desavença... Um trunfo do casal.       Outra olhadela no jornal na página sobre política nacional. 

Manchete: Página A3. 

“Líder do Governo na Câmera dos Deputados disse que aliança política é inevitável  e indispensável ao crescimento do  País” 
Enquanto bebericava seu café, a garota pensava em como seria a vida depois de  casada. Se haveria a mesma paz. Se ambos sairiam para um café despretensioso. Se haveria o mesmo respeito mútuo. E se haveria fidelidade... Principalmente.             
Ele por sua vez estava pensando em terminar os estudos. Queria trocar de carro, um que fosse mais novo do que o atual, com mais conforto, inclusive. Queria assistir ao jogo de futebol de seu time do coração que seria logo mais ao entardecer.... Novamente as páginas do jornal atraem os olhos do rapaz.

Manchete: Página D2 

“Clássico promete muitas emoções e disputa acirrada por vaga na final do Campeonato Brasileiro” 
Uma senhora de roupas sujas e meio rasgadas e pés descalços e igualmente sujos adentra ao Café. Aproxima-se do casal e pede algum trocado. A garota apanha a bolsa e retira de dentro a carteira e dela retira algumas moedas sem olhar o quanto valiam. Dá as moedas aquela senhora maltrapilha e com um breve sorriso volta a bebericar o seu café. A senhora se vai... Desta vez é ela quem se serve de uma das páginas para averiguar uma das notícias...         

Manchete: Página C5              

“Com uma Ação de Despejo, polícia invade área, retira moradores à força, destrói os barracos, e mais de cem famílias ficam desalojadas.” 
Ele esboça dizer que está a fim de fazer uma viagem, sozinho. Gostaria de passar uns dias acampando no litoral norte. De pisar a areia branca da praia. De comer mariscos e de ficar tocando violão a luz do luar ouvindo o som das ondas do mar... Sem mais ninguém!!! 

Manchete: Página F3   

“O Teatro Municipal vai abrir portas para a Orquestra de Câmera de Viena que fará apenas duas apresentações, uma na Terça e outra no Sábado”              
Enfim a garota pede que ambos saiam. Passam pelo Caixa. Pagam a conta. E antes de partirem resolvem passar no supermercado mais próximo para fazer compras. O tempo muda e uma tempestade parece estar mais do que próxima... 

Manchete: Página G2    

“O tempo permanece estável, mas há previsão de pancadas de chuva em pontos isolados da cidade...”

quarta-feira, 7 de março de 2012

Pombas - Crônica



Ainda outro dia quando ia ao trabalho passei por uma rua onde havia sacos de lixo amontoados num canto da calçada próximo do poste de energia elétrica. Com certeza, estavam ali para que os coletores de lixo os retirassem. E o que me chamou a atenção para aqueles sacos de lixo na calçada era o fato de estarem “cobertos” de pombas. Em busca de comida as tais pombas bicavam aqui e acolá. E a cena me pareceu um tanto surreal.
 Afinal, eu sempre vira cães em busca de alimento nos sacos de lixo e não pombas. Bem, passei a fazer reflexões sobre aquela imagem inusitada e fiquei mesmo arrependido por não estar portando a minha câmera fotográfica, pois iria registrar aquele momento, afinal, não é sempre que se depara com certas cenas nesta vida... Deixando a questão das fotos de lado, a cena me pareceu emblemática, pois crer que seja uma cena bem ao modo dos novos tempos... As mudanças, por mais que saibamos que irão acontecer, sempre mexem conosco.    Deixem-nos por vezes aflitos. Às vezes nos revigoram às vezes nos deixam em frangalhos, são mudanças! Não imaginava que um dia pudesse ver um grupo de pombas buscando alimento num amontoado de sacos de lixo. Mas eu também não imaginava até onde iriam meus estudos; que ia ter habilitação para dirigir um carro ou uma moto; não imaginava que ia gostar tanto de boteco e de cerveja gelada; de internet; de almoçar em restaurantes com os amigos; de fazer caminhadas aos sábados logo de manhãzinha! ...A gente se surpreende com o futuro!Quando eu tinha a tenra idade, morávamos no mesmo bairro em que moro até hoje, só que em outra rua, outra casa. Lá, lembro-me, havia muitas pombas. Elas vinham aos bandos buscar alimentos nos arrabaldes do galinheiro que minha mãe tinha.      Aliás, era de lá que vinham os ovos e até os frangos para o sustento da família. E eu acho que as galinhas e frangos não se importavam muito em dividir comida com as pombas, afinal, era uma época tão difícil, que todos acabavam se ajudando de um jeito ou de outro; homens e animais... Era uma época em que tudo era complicado e não havia as regalias que hoje se tem... Lembro-me que a mãe guardava pedaços de carne em latas de banha de porco para que não se estragassem, pois não havia geladeira. Não havia TV. Refrigerante era apenas no final de ano. A mãe comprava mantimentos para nossa casa em Armazéns e eu me recordo que muitas coisas eram vendidas a granel, como por exemplo, arroz; feijão; macarrão; óleo de cozinha, água sanitária... Naquela época havia um Matadouro Municipal. Era o responsável por abastecer os Açougues da cidade. Imaginem a precariedade tanto do Matadouro quanto dos Açougues! Não havia uma Vigilância Sanitária para exigir a observância de normas e técnicas de higiene no manuseio dos produtos como se tem hoje. A nossa casa também não tinha forro e os malditos pernilongos vinham aos montes passar à noite comigo e meus irmãos... Malditos pernilongos! No pátio da escola onde eu estudei as primeiras séries também vinham pombas buscar alimentos e eu me recordo que nós até corríamos atrás delas para tentar pegá-las, porém sempre sem êxito, óbvio. As pombas, como muitos animais, buscam Alimento, Água e Abrigo. Dizem até que é o famoso triângulo da vida. E aí, para você acabar com estas aves, caso seja necessário, bastaria obstruir o acesso delas o um desses elementos. Na necessidade as pombas procuram outros locais para sua subsistência. Se lhes tiram qualquer um desses elementos e a sobrevivência fica comprometida voam até onde haja novamente aquilo de que precisam... Talvez as nossas mudanças possam ser encardas assim também... Uma vez que se nos tirassem algo de que muito precisamos para sobreviver, incomodados, ou postos de lado num determinado momento da vida, bastaria que fôssemos buscar a nossa água; o abrigo e o alimento em outro lugar... Mudanças são necessárias e, assim como as pombas, temos, por vezes, que alçar vôos mais distantes para encontrar nosso espaço... Como as pombas, buscamos a sobrevivência, acima de tudo!



terça-feira, 6 de março de 2012

Cotidiano - Conto

Fim de tarde!
O boteco ficava na subida do morro. E o velho caminhão com a carroceria carregada de lenha subia vagarosamente com seus ocupantes “empoleirados” nas toras de eucalipto.
Ele desceu do caminhão todo sujo e cansado. Entrou no boteco. Pediu a cachaça de copo cheio. Apenas um trago... Alguns pingos escorreram pelo canto da boca e pela  barba por fazer. Enquanto isso ele pensava em sua vida. . A mulher fora embora para Maceió e levara o filhinho de apenas quatro anos consigo. Ele não fez questão nenhuma não. Só achou estranho ficar sozinho. Mas só por alguns dias. Foi só.  Foi para fora do boteco e acendeu um cigarro, pela nova lei, não se pode mais fumar sossegado dentro de boteco...!
Com a tragada a fumaça passava entre seus dentes amarelados. O olhar paralisado num ponto qualquer. Nenhuma palavra. Nada a dizer a ninguém. Apenas o infortúnio na espreita... Uma mulher entra no boteco para comprar doces para sua filhinha que a acompanha. E a imagem do filho lhe vem à cabeça. Dá outra tragada no cigarro... Desta vez com mais força... puxando o máximo de fumaça para dentro dos pulmões. É isso. Pensa consigo mesmo. Vai até o balcão e pede outra dose. Outro copo cheio. Toma de uma só vez. Novamente a cachaça escorre pela barba. Ao sair cumprimenta um amigo que estava sentado bebericando com sua companheira num outro canto do bar. Então pensa que deveria ser ele a estar sentado ali naquele local... Com uma bela garota a lhe fazer carinho enquanto bebem e riem das coisas da vida... Mas ele não está lá para pensar em nada. Só quer esquecer. Quer esquecer-se da mulher que foi embora. Quer esquecer-se do filhinho que há três anos não vê. Quer esquecer que ganha uma “merreca” para carregar toras de madeira nas costas durante oito horas por dia... Quer esquecer-se do “Filho da Puta” do patrão que a esta hora está na banheira de hidromassagem bebendo uísque e transando com a mulher enquanto seus filhos se distraem jogando videogame num outro quarto da casa...! “Filho da Puta”! Ao sair do boteco indo em direção ao seu barraco ele topa com o dedão do pé esquerdo numa pedra e diz alguns palavrões meio sem nexo e sem sentido... Cambaleia e vai e anda e tropeça de novo e assim vai até que chega ao seu barraco.  A conta de luz não fora paga. Sequer a de água. Não teria um bom banho, novamente. As roupas estavam amassadas em um canto do quarto. A cama desarrumada desde a manhã daquele dia. O fogão tinha um bule com café frio e um prato sujo do dia anterior. Tinha também uma panela com uma misturaria que nem dava para identificar... A imagem do maldito do patrão volta a sua mente. “Filho da Puta”, diz. “ Então ele imagina a cena:  O Patrão trocado e cheiroso. A comida sobre a mesa toda enfeitada. Flores de arranjo num vaso de porcelana. Velas. As crianças sorrindo... Foi mais um dia perfeito que tiveram! “Filhos da Puta”, todos uns “Filhos da Puta”, pensa! Cai sobre a cama e dorme e baba no lençol rasgado e sujo. E em seus sonhos ele vê a mulher e o filho correndo ao seu encontro numa paisagem paradisíaca dessas que só existem em filme... Amanhece, com dor de cabeça e uma ressaca gigantesca ele pega carona na carroceria do caminhão para mais um dia de trabalho...
                  

segunda-feira, 5 de março de 2012

Fevereiro de 2012 - Conto


Parecia cedo, mas era tarde demais para uma retirada estratégica! E Joaquim viu-se na obrigatoriedade de fazer aquilo que melhor fazia... Matar. Preparou a arma e atirou na cabeça do rapaz! Devia ter apenas uns 18 anos, o infeliz. Pensou... Mas durante um assalto alguém estaria preocupado com a idade?...Pessoas morrem todos os dias, ele pensou... Apenas sorriu como sempre fazia em situações como essa.  E do quarto “mineirinho” gritou: - Esta aqui! Todos foram até o quarto, menos Renato que ficara na porta da frente da casa para dar cobertura. A noite estava clara. Lua cheia. Calor infernal. Os termômetros marcavam mais de 30 graus durante todo o dia. Pessoas que trabalhavam sem a proteção de uma sombra sofriam com a intensidade dos raios solares. Serventes, Pedreiros, Garis, “Flanelinhas”, Lixeiros, Guardas de Trânsito... E tantos outros empregos igualmente sem a proteção para aquele calor que ardia na pele e na alma... Era Fevereiro de 2012. Abriram o cofre, enfim. Pegaram todo o dinheiro e as jóias. Também levaram aparelhos eletrônicos alguma prataria que havia num móvel destes bem antigos lá da Sala de Estar. Foi Alan quem ouviu o som da sirene da Polícia. A casa ficou cercada em poucos minutos. E como hoje em dia as notícias correm rápidas, logo apareceram as TVs e suas câmeras e fotógrafos. Há equipes de plantão de todas as emissoras para dar suporte quando a notícia é de impacto, como esta. A audiência sobe muito. Todos querem ver o que vai acontecer com “bandidos” e com as “vítimas” Os patrocinadores investem muito dinheiro em reportagens como essa. É o tipo de “cobertura jornalística” que traz Ibope a qualquer Emissora!  Um policial subiu pelo muro da casa. Outro foi pelo telhado. Ainda outro pelo portão da frente. Um helicóptero sobrevoava a casa com vôos rasantes para intimidar os assaltantes. Atiradores de Elite tomaram posições estratégicas para poder alvejar os bandidos a qualquer momento... Uma cena hollywoodiana.  Na casa, além dos bandidos, estavam ainda o Sr. Amarildo, empresário e pai da família; sua mulher Marina; seu filho menor Ricardo, e o cachorro Basset “sinuca”... Leandro, o filho mais velho do casal, já havia sido alvejado e jazia ensangüentado no tapete persa da sala. Todos estavam sob as miras das armas dos bandidos. O clima era tenso!  As TVs com seus Jornais e programas especializados em desastres estavam com todas as equipes trabalhando muito. Máquinas fotográficas; Câmeras de vídeo; Repórteres; Assessores... Tudo para dar a melhor cobertura sobre o assunto.  A polícia enfim entrou na casa. Houve troca de tiros. Cabo Marinho morreu no confronto com um tiro na cabeça. Bombas de gás de efeito moral foram atiradas e a casa parecia em chamas, aumentando ainda mais a expectativa de solução. O barulho dos tiros podia ser ouvido à longa distância.

Joaquim também morreu no confronto, com um tiro no peito. Os demais foram presos...As câmeras buscavam as melhores imagens, principalmente para mostrar quem era o bandido alvejado.

Propaganda I:


Uma bela mulher, na praia, vai até um quiosque e pede uma cerveja. Um rapaz, de porte físico atlético chega e pede a mesma cerveja... Ambos bebem no mesmo momento um belo gole da cerveja... Depois aparecem juntos no mar entre beijos e abraços calorosos...


Propaganda II:


A lâmina de barbear passa pela face do rapaz. Está de toalha na cintura e o banheiro é de azulejos azuis de fino acabamento. Seu rosto fica lisinho com uma simples passada da lâmina... Uma garota chega e abraça-o envolvendo os braços pela cintura e ambos aparecem sorrindo no espelho...


Propaganda III:


(Institucional) A nova novela das 21h00min terá a participações importantes de vários artistas famosos. O tema falará da vinda da Corte Portuguesa para o Brasil no século XVII e vai retratar como viviam as pessoas da Corte e como se relacionavam com os moradores locais; Será gravada no Rio de Janeiro...


Na volta das imagens do local os repórteres conversavam com a mãe de Leandro, morto no assalto. Em prantos ela dizia que o menino era ótimo. Que estudava medicina. Que tinha uma noiva e que estava preparando-se para viajar a Europa naquela semana... Tudo em vão. Também conversaram com a mãe do Joaquim, morto pelos policiais. Aos repórteres ela dizia, com lágrimas nos olhos, que o menino era bom. E mostrou uma foto do álbum de fotografias onde ele aparecia ainda bebê, de chupeta na boca, dormindo sossegadamente num berço de madeira. A reportagem durou ainda mais uns instantes. As cenas seguintes mostravam os bandidos sendo levados para a Delegacia para prestar depoimentos. E também mostrava a família do Sr. Amarildo sendo socorridas por ambulâncias, levadas ao hospital mais próximo. A noite quente de verão foi notícia também nos Telejornais. A informação da meteorologia dizia que nos próximos dias iria o tempo manter-se assim, com o calor intenso em todas as regiões do País, média de 30 graus... Era fevereiro de 2012.




sexta-feira, 2 de março de 2012

Cinzas e Sonhos - Poesia


São todos seus esses dias de sombras e nuvens escuras!!
Seus momentos de tristeza estão apenas começando;
Pois você buscou a morte ao invés da vida em seus sonhos;
Sim. Não está à sua volta nenhum dos amigos verdadeiros...

Você fez da sua vida esse buraco enorme e sem visão!!
Agora pede desculpa e quer a reconciliação inexistente;
Não lhe cabem, caríssimo, a fala rouca e o soluçar...
Tampouco poderá dizer que não sabia o que fazia...

Fica, pois com todas as suas lamúrias e injúrias!
Afinal você foi quem quis o querer mais que o todo!
E o querer nada quer além de si mesmo todos os dias...
O querer quis e você lhe deu tudo de melhor!
  
Esses dias de chuva e trovoadas vão ser seu castigo!
Eterno, creio, posto que não haja tempo para a redenção...
Agora que tudo está consumado receba o que é teu!
E de braços abertos para melhor sentir a sua dimensão...    



Liberdade! - Poesia



Você escolhe se se quer ter um bom dia!

Você pode até ter uma ótima idéia!

Pode querer ser “pequeno” ou “grande”

Pode amar ou ser amado se quiser!



Talvez você queira apenas viver e ser livre!

Elevar-se sobre os pés e olhar com sabedoria!

Ou apenas regozijar pela passagem bem feita!

Ou até sentir-se seguro de si neste momento!



Você é apenas mais um, eu bem sei!

Eu também sou!

Mas nós temos uma visão diferente do todo...

Vemos diferentes ângulos daquilo que se vê!



É que nada somos diante de tanta beleza na vida!

É que perdemos a chance de mudar todos os dias!

 É que somos lapidados para ser aquilo que somos!

É que não nos damos ao direito de outras opções!



Nesse mar que é à distância de nossos olhos!

Nessa paisagem efêmera que alimenta nossa alma!

Há um lugar que nos é permitido ficar a sós!

Pulsando no meio do peito e que nunca adormece!!!


quinta-feira, 1 de março de 2012

Jardins - Crônica


Adoro Jardins. Desde que me conheço por gente, tem Jardim na frente da minha casa. Minha mãe é quem cuida. E cuida muito bem, diga-se de passagem. Não sei de onde veio o seu gosto pela jardinagem, mas imagino que tenha a ver com o cuidar das hortas na época em que ela morava no Sítio.  Aquela sensação gostosa de mexer com a terra; de afofá-la; de misturar com esterco... Enfim, coisas que aprendeu com o lidar da terra.  Eu até me arrisco, mas confesso que perto da mãe jardineira eu sou “piada de mau gosto”... Muito ruim mesmo. E tenho notado que, infelizmente, hoje em dia, as pessoas não têm dado tanto valor aos Jardins. É comum ver casas sendo projetadas sem jardim. Com aqueles enormes portões de ferro e chapa de aço; muros altos; cercas elétricas que percorrem toda a extensão do muro.   Ninguém mais quer cuidar de Jardins.  Ocorreu-me que o mundo tem mudado de tal maneira que as pessoas não estão conseguindo mais enxergar a beleza das flores. Preocupa-me essa postura. Essa falta de sensibilidade. Esse desencanto com algo tão puro e ingênuo... Cheio de significados! O fato de o homem não mais querer um Jardim a lhe enfeitar a frente de sua casa denota uma falta de compromisso com as coisas mais naturais.  Os Jardins têm dado lugar à outra paixão do mundo moderno. A Tecnologia.  Afinal, “-para que Jardim se tem tecnologia dentro de casa?”. Talvez eles pensem assim... Vale ter aparelhos de última geração. Belos e rápidos Notebooks. Internet Banda Larga. Som e imagens digitais. Televisores com tela de Cristal Líquido e imagens em alta definição; Celulares com conectividade para internet... Entretenimento e informação em tempo real. Então, por que “perder tempo” com Jardins? Mas os Jardins são capazes de dar alma, de dar vida às casas. São capazes de enfeitar mesmo num dia escuro e nebuloso de tempestade... Vive-se, assim, hoje em dia, enclausurado. Enjaulado. Como animais em um zoológico mesmo. Com medo de assaltos, sim, porém felizes com nossos “brinquedinhos” tecnológicos. Estamos vivendo uma época emblemática. Daqui a pouco não se tem mais Jardins. Não se pega mais na mão da namorada. Não se sai mais num domingo à tarde para tomar um bom sorvete. Não se leva mais criança em parque de diversões... Tudo é dentro de casa. Ligado às máquinas e equipamentos que nos dão a falsa sensação de liberdade dentro de nossos próprios “lares prisão.”. Não temos mais prazer com as coisas simples. Tudo tem que ser complexo. Tem que ter velocidade. Interatividade. Tudo se resume a espaços pequenos onde nos debruçamos para escrever; brincar; trabalhar; estudar e jogar enfim... Nosso espaço está ficando do tamanho de nossos equipamentos. E nossas vontades estão ficando dentro deles tanto quanto. Aí eu pergunto: - Então para que ter uma casa com vários metros quadrados? Para nada. Não nos serve ter mais casas grandes; quartos grandes; Jardins; Piscina... Para que? Para que ter espaço se você só precisa de um cantinho com uma máquina e um sinal de internet? Ainda prefiro os Jardins da minha mãe aos espaços ínfimos ladeados de ampla tecnologia. Mas temo pelo futuro dos mais jovens, pois ele não tem como referência os Jardins de suas mães, e sim, os altos muros, os portões fechados e o isolamento em um cantinho qualquer da casa...