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Tenho saudades de quando eu tinha meus tenros dez anos de idade.
Era o ano de 1974. As crianças brincavam na rua do bairro que
ficava um pouco afastado do centro da cidade.
Era a época das Pipas; das Bolinhas de Gude; dos Balões; de
brincadeiras como o Pique – Esconde; Pega Ladrão; Bandido e Mocinho; Passa
Anel... E tantas outras brincadeiras que a lembrança não conseguiu guardar com
tanto carinho...
Vivíamos num local tranqüilo e ainda não havia pavimentação nas
ruas, apenas cascalho, e era comuns, inclusive, aqueles tropeços com o dedão do
pé que sempre lascavam as unhas e causavam muitas dores.
Lembro-me da mãe sofrendo para passar o tal de “mertiolate” no
ferimento. Aquele remédio queimava muito e a gente pedia “pelo amor de Deus”
para que alguém soprasse o local que, além da dor de estar machucado, agora
estava queimando em brasa...
Naquela época, além de usar o mertiolate, usava-se também a sulfa
para ajudar na cicatrização das feridas. Em poucos dias já se via uma “casca”
sobre o ferimento e era muito comum também aquela “casca” acabar sendo retirada
de forma abrupta, pois as crianças não param nunca de brincar e a tendência
natural era mesmo que os machucados remontassem uns sobre os outros...
Bem, também era comum naquela época ver mendigos perambulando pelos bairros atrás de comida; de alguma
roupa surrada que não mais se usava; ou de algum trocado; este último mais escasso
e difícil de obter...
Geralmente eram homens. Negros. Usavam roupas maltrapilhas. Também
eram chamados de bêbados. E por incrível que possa parecer era também comum
vê-los usando aquelas varetas, postas sobre os ombros para carregar trouxas de
roupa e outros apetrechos de viagem, parecia que estávamos vendo alguma imagem
de um livro ilustrado, passando diante de nossos inocentes olhos...
Historias eram contadas sobre estes homens “sem eira e nem beira”,
como se dizia na época. A maior parte delas relatava que aqueles homens eram
maus. Que pegavam as crianças que não obedeciam aos pais e as levavam para
longe de suas casas. O medo
imperava quando víamos que algum mendigo se aproximava... Afinal pairava sobre
eles todo infortúnio desse mundo!
Daquela época para os dias atuais muito mudou.
O Mundo Moderno é cheio de regalias e de privilégios. Muita
comida. Muita bebida. Roupas. Carros com todo conforto e econômicos. Gêneros de
todos os tipos para todos os gostos. Mas também é cheio de mazelas e, algumas
delas, inclusive, dignas de pena, posto ser a degradação dos seres humanos.
Hoje em dia é muito difícil ver alguém mendigando nas ruas pelos
mesmos motivos. Porém não é tão
incomum ver pedintes de dinheiro. São os “mendigos do futuro”.
São as pessoas que vagam pelas ruas das Megalópoles e das
cidadezinhas do interior do Estado, tanto da área urbana quanto da área rural, em busca de trocados. São meninos
e meninas; homens e mulheres, em busca de dinheiro para atender ao vício. O
vício do CRACK. Em busca da
satisfação que a droga traz estas pessoas são capazes de fazer qualquer
coisa... Literalmente.
Vendo os atuais mendigos, às vezes, sinto saudades daquela época.
Nós não tínhamos à época as regalias de que dispomos hoje, é
bem verdade, mas também não tínhamos pessoas vagando pelas ruas atrás de
dinheiro para sustentar um vício tão pernicioso e tão destrutivo, que destrói
famílias inteiras, deixando-as à deriva e mexendo com a sociedade a
ponto de se ter programas governamentais específicos para cuidar deste problema
tão letal que acomete praticamente o Mundo. Saudades...

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