Fim de
tarde!
O
boteco ficava na subida do morro. E o velho caminhão com a carroceria carregada
de lenha subia vagarosamente com seus ocupantes “empoleirados” nas toras de
eucalipto.
Ele
desceu do caminhão todo sujo e cansado. Entrou no boteco. Pediu a cachaça de
copo cheio. Apenas um trago... Alguns pingos escorreram pelo canto da boca e
pela barba por fazer. Enquanto
isso ele pensava em sua vida. . A mulher fora embora para Maceió e levara o
filhinho de apenas quatro anos consigo. Ele não fez questão nenhuma não. Só
achou estranho ficar sozinho. Mas só por alguns dias. Foi só. Foi para fora do boteco e acendeu um
cigarro, pela nova lei, não se pode mais fumar sossegado dentro de boteco...!
Com a
tragada a fumaça passava entre seus dentes amarelados. O olhar paralisado num
ponto qualquer. Nenhuma palavra. Nada a dizer a ninguém. Apenas o infortúnio na
espreita... Uma mulher entra no boteco para comprar doces para sua filhinha que
a acompanha. E a imagem do filho lhe vem à cabeça. Dá outra tragada no
cigarro... Desta vez com mais força... puxando o máximo de fumaça para dentro
dos pulmões. É isso. Pensa consigo mesmo. Vai até o balcão e pede
outra dose. Outro copo cheio. Toma de uma só vez. Novamente a cachaça escorre pela
barba. Ao sair cumprimenta um amigo que estava sentado bebericando com sua
companheira num outro canto do bar. Então pensa que deveria ser ele a estar
sentado ali naquele local... Com uma bela garota a lhe fazer carinho enquanto
bebem e riem das coisas da vida... Mas ele não está lá para
pensar em nada. Só quer esquecer. Quer esquecer-se da mulher que foi embora.
Quer esquecer-se do filhinho que há três anos não vê. Quer esquecer que ganha
uma “merreca” para carregar toras de madeira nas costas durante oito horas por
dia... Quer esquecer-se do “Filho da Puta” do patrão que a esta hora está na
banheira de hidromassagem bebendo uísque e transando com a mulher enquanto seus
filhos se distraem jogando videogame num outro quarto da casa...! “Filho da
Puta”! Ao sair do boteco indo em direção ao seu barraco ele topa
com o dedão do pé esquerdo numa pedra e diz alguns palavrões meio sem nexo e
sem sentido... Cambaleia e vai e anda e tropeça de novo e assim vai até que
chega ao seu barraco. A
conta de luz não fora paga. Sequer a de água. Não teria um bom banho,
novamente. As roupas estavam amassadas em um canto do quarto. A cama
desarrumada desde a manhã daquele dia. O fogão tinha um bule com café frio e um
prato sujo do dia anterior. Tinha também uma panela com uma misturaria que nem
dava para identificar... A
imagem do maldito do patrão volta a sua mente. “Filho da Puta”, diz. “ Então ele imagina a cena: O Patrão trocado e cheiroso. A comida
sobre a mesa toda enfeitada. Flores de arranjo num vaso de porcelana.
Velas. As crianças sorrindo... Foi mais um dia perfeito que tiveram!
“Filhos da Puta”, todos uns “Filhos da Puta”, pensa! Cai sobre a
cama e dorme e baba no lençol rasgado e sujo. E em seus sonhos ele vê a mulher
e o filho correndo ao seu encontro numa paisagem paradisíaca dessas que só existem
em filme... Amanhece, com dor de cabeça e uma ressaca
gigantesca ele pega carona na carroceria do caminhão para mais um dia de
trabalho...

Triste essa hein Keijão...
ResponderExcluirFicção com retoques de realidade!
Fiquei imaginando o cara... na hora me lembrei de um cidadão com quem trabalhei e levava uma vida "mais ou menos" assim...
Manda mais meu Poeta!
Valeu querido...minha inspiração passa, inevitavelmente, por aqueles que leem o que escrevo, e eu fico feliz em saber que você, muito querido meu, faz parte das histórias de minha vida...literalmente.
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