segunda-feira, 5 de março de 2012

Fevereiro de 2012 - Conto


Parecia cedo, mas era tarde demais para uma retirada estratégica! E Joaquim viu-se na obrigatoriedade de fazer aquilo que melhor fazia... Matar. Preparou a arma e atirou na cabeça do rapaz! Devia ter apenas uns 18 anos, o infeliz. Pensou... Mas durante um assalto alguém estaria preocupado com a idade?...Pessoas morrem todos os dias, ele pensou... Apenas sorriu como sempre fazia em situações como essa.  E do quarto “mineirinho” gritou: - Esta aqui! Todos foram até o quarto, menos Renato que ficara na porta da frente da casa para dar cobertura. A noite estava clara. Lua cheia. Calor infernal. Os termômetros marcavam mais de 30 graus durante todo o dia. Pessoas que trabalhavam sem a proteção de uma sombra sofriam com a intensidade dos raios solares. Serventes, Pedreiros, Garis, “Flanelinhas”, Lixeiros, Guardas de Trânsito... E tantos outros empregos igualmente sem a proteção para aquele calor que ardia na pele e na alma... Era Fevereiro de 2012. Abriram o cofre, enfim. Pegaram todo o dinheiro e as jóias. Também levaram aparelhos eletrônicos alguma prataria que havia num móvel destes bem antigos lá da Sala de Estar. Foi Alan quem ouviu o som da sirene da Polícia. A casa ficou cercada em poucos minutos. E como hoje em dia as notícias correm rápidas, logo apareceram as TVs e suas câmeras e fotógrafos. Há equipes de plantão de todas as emissoras para dar suporte quando a notícia é de impacto, como esta. A audiência sobe muito. Todos querem ver o que vai acontecer com “bandidos” e com as “vítimas” Os patrocinadores investem muito dinheiro em reportagens como essa. É o tipo de “cobertura jornalística” que traz Ibope a qualquer Emissora!  Um policial subiu pelo muro da casa. Outro foi pelo telhado. Ainda outro pelo portão da frente. Um helicóptero sobrevoava a casa com vôos rasantes para intimidar os assaltantes. Atiradores de Elite tomaram posições estratégicas para poder alvejar os bandidos a qualquer momento... Uma cena hollywoodiana.  Na casa, além dos bandidos, estavam ainda o Sr. Amarildo, empresário e pai da família; sua mulher Marina; seu filho menor Ricardo, e o cachorro Basset “sinuca”... Leandro, o filho mais velho do casal, já havia sido alvejado e jazia ensangüentado no tapete persa da sala. Todos estavam sob as miras das armas dos bandidos. O clima era tenso!  As TVs com seus Jornais e programas especializados em desastres estavam com todas as equipes trabalhando muito. Máquinas fotográficas; Câmeras de vídeo; Repórteres; Assessores... Tudo para dar a melhor cobertura sobre o assunto.  A polícia enfim entrou na casa. Houve troca de tiros. Cabo Marinho morreu no confronto com um tiro na cabeça. Bombas de gás de efeito moral foram atiradas e a casa parecia em chamas, aumentando ainda mais a expectativa de solução. O barulho dos tiros podia ser ouvido à longa distância.

Joaquim também morreu no confronto, com um tiro no peito. Os demais foram presos...As câmeras buscavam as melhores imagens, principalmente para mostrar quem era o bandido alvejado.

Propaganda I:


Uma bela mulher, na praia, vai até um quiosque e pede uma cerveja. Um rapaz, de porte físico atlético chega e pede a mesma cerveja... Ambos bebem no mesmo momento um belo gole da cerveja... Depois aparecem juntos no mar entre beijos e abraços calorosos...


Propaganda II:


A lâmina de barbear passa pela face do rapaz. Está de toalha na cintura e o banheiro é de azulejos azuis de fino acabamento. Seu rosto fica lisinho com uma simples passada da lâmina... Uma garota chega e abraça-o envolvendo os braços pela cintura e ambos aparecem sorrindo no espelho...


Propaganda III:


(Institucional) A nova novela das 21h00min terá a participações importantes de vários artistas famosos. O tema falará da vinda da Corte Portuguesa para o Brasil no século XVII e vai retratar como viviam as pessoas da Corte e como se relacionavam com os moradores locais; Será gravada no Rio de Janeiro...


Na volta das imagens do local os repórteres conversavam com a mãe de Leandro, morto no assalto. Em prantos ela dizia que o menino era ótimo. Que estudava medicina. Que tinha uma noiva e que estava preparando-se para viajar a Europa naquela semana... Tudo em vão. Também conversaram com a mãe do Joaquim, morto pelos policiais. Aos repórteres ela dizia, com lágrimas nos olhos, que o menino era bom. E mostrou uma foto do álbum de fotografias onde ele aparecia ainda bebê, de chupeta na boca, dormindo sossegadamente num berço de madeira. A reportagem durou ainda mais uns instantes. As cenas seguintes mostravam os bandidos sendo levados para a Delegacia para prestar depoimentos. E também mostrava a família do Sr. Amarildo sendo socorridas por ambulâncias, levadas ao hospital mais próximo. A noite quente de verão foi notícia também nos Telejornais. A informação da meteorologia dizia que nos próximos dias iria o tempo manter-se assim, com o calor intenso em todas as regiões do País, média de 30 graus... Era fevereiro de 2012.




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