segunda-feira, 26 de março de 2012

Segurança - Conto


Cauê. Esse era o nome que a mãe dera ao menino. Nasceu Cauê para crescer e ser criado pela avó, pois a mãe falecera quando ele ainda tinha poucos meses de vida, vítima de bala perdida num confronto entre traficantes e policias lá no Morro dos Macacos.
Com apenas dezesseis anos já era um dos “soldados” do tráfico lá do morro. Passava os dias e as noites a vigiar os pontos de tráfico de drogas. Era alto. Chamava a atenção por ter braços muito fortes, apesar da pouca idade. Era de cor parda e vivia de olhos bem abertos. No “trabalho” era conhecido pelo temperamento forte. Era comum vê-lo envolvido em brigas mesmo por pouquíssimos que fossem os motivos da desavença...   
Há tempos ele não sabia o que era dormir bem. Tampouco sabia o que era comer bem. Só sabia que tinha que vigiar e atirar sem excitar quando necessário fosse.
Como era um bom “soldado” ostentava um belo colar de prata no peito, anéis e tinha até umas tatuagens espalhadas pelo corpo. Um “Dragão Chinês” na panturrilha esquerda. Uma “Tribal” nas costas na altura do ombro do lado direito. E uma no antebraço esquerdo, lado inferior, com o nome da sua amada, Michele.  
Dizia que iriam se casar. Dava-lhe presentes caros. Colares de prata, de ouro... Joias. Pagou, inclusive, tatuagem na região lombar, na altura do cóccix da garota e mandou escrever em letras góticas seu nome, dizendo que era por amor, mas os amigos mais próximos sabiam que ele só queria “marcar” seu território... Ninguém mexe com garota marcada por tatuagem de traficante.             
A polícia subiu o morro num destes dias de sol quente e de praia.            
Neste dia morreu um homem chamado José de Almeida, o “Zé Formiga”. Gente boa. Era casado e tinha dois filhos com a Maria da Penha. Trabalhava na construção civil como Auxiliar de Pedreiro. Gostava de futebol e não perdia um jogo de seu time do coração. Freqüentava Terreiro de Umbanda. Era um homem simples de hábitos simples.
Como sempre alguém morria no confronto entre policiais e traficantes e as pessoas foram se acostumando com este tipo de tragédia anunciada. Mesmo os noticiários de TV não ficavam mais mirando os holofotes para essas mortes corriqueiras...
Michele deu de querer ficar com outro rapaz.
Flertou com Lúcio, o “Ferrugem”. E esse rapaz era de outra facção criminosa que não se dava com o pessoal do Cauê.
Não demorou a informação chegar aos ouvidos de Cauê. Jurou vingança. Disse que mataria tanto Michele como o tal de “Ferrugem”. O clima ficou tenso por alguns dias. Cauê caiu em desgraça. Bebeu e usou muita droga para “esquecer”, segundo ele próprio, a vadia da Michele.
Mas o destino é impiedoso e não escolhe esse ou aquele vai morrer. Apenas faz a sua parte e dá novos contornos às histórias de vida das pessoas, indistintamente.
A polícia novamente invadiu o morro. Desta vez veio com o apoio do Exército. Homens bem treinados portando armas de grosso calibre subiram as ruas do morro em busca de traficantes, drogas e de armas.
No confronto, morreram Cauê e Lúcio, o “Ferrugem”. Muitos quilos de droga foram encontrados. Armas e munição pesada. Coletes à prova de bala.
Os jornais deram destaque principalmente à ação coordenada entre as duas forças de segurança pública.
Michele soube da morte de ambos. Não deu importância e sequer chorou segundo uma amiga íntima. Tinha ganhado dos dois rapazes muitos presentes. Era jovem e bonita. E só precisava encontrar outro rapaz apaixonado para ter uma vida boa, cheia de regalias e de segurança, principalmente de segurança, algo tão escasso nos dias de hoje!

Nenhum comentário:

Postar um comentário