Cauê. Esse era o nome que a mãe dera ao menino. Nasceu
Cauê para crescer e ser criado pela avó, pois a mãe falecera quando ele ainda
tinha poucos meses de vida, vítima de bala perdida num confronto entre
traficantes e policias lá no Morro dos Macacos.
Com apenas dezesseis anos já era um dos “soldados” do tráfico lá
do morro. Passava os dias e as noites a vigiar os pontos de tráfico de drogas.
Era alto. Chamava a atenção por ter braços muito fortes, apesar da pouca idade.
Era de cor parda e vivia de olhos bem abertos. No “trabalho” era conhecido pelo
temperamento forte. Era comum vê-lo envolvido em brigas mesmo por pouquíssimos
que fossem os motivos da desavença...
Há tempos ele não sabia o que era dormir bem. Tampouco sabia o que
era comer bem. Só sabia que tinha que vigiar e atirar sem excitar quando
necessário fosse.
Como era um bom “soldado” ostentava um belo colar de prata no
peito, anéis e tinha até umas tatuagens espalhadas pelo corpo. Um “Dragão
Chinês” na panturrilha esquerda. Uma “Tribal” nas costas na altura do ombro do
lado direito. E uma no antebraço esquerdo, lado inferior, com o nome da sua
amada, Michele.
Dizia que iriam se casar. Dava-lhe presentes caros. Colares de
prata, de ouro... Joias. Pagou, inclusive, tatuagem na região lombar, na altura
do cóccix da garota e mandou escrever em letras góticas seu nome, dizendo que
era por amor, mas os amigos mais próximos sabiam que ele só queria “marcar” seu
território... Ninguém mexe com garota marcada por tatuagem de traficante.
A polícia subiu o morro num destes dias de sol quente e de praia.
Neste dia morreu um homem chamado José de Almeida, o “Zé Formiga”.
Gente boa. Era casado e tinha dois filhos com a Maria da Penha. Trabalhava na
construção civil como Auxiliar de Pedreiro. Gostava de futebol e não perdia um
jogo de seu time do coração. Freqüentava Terreiro de Umbanda. Era um homem
simples de hábitos simples.
Como sempre alguém morria no confronto entre policiais e
traficantes e as pessoas foram se acostumando com este tipo de tragédia
anunciada. Mesmo os noticiários de TV não ficavam mais mirando os holofotes
para essas mortes corriqueiras...
Michele deu de querer ficar com outro rapaz.
Flertou com Lúcio, o “Ferrugem”. E esse rapaz era de outra facção
criminosa que não se dava com o pessoal do Cauê.
Não demorou a informação chegar aos ouvidos de Cauê. Jurou
vingança. Disse que mataria tanto Michele como o tal de “Ferrugem”. O clima
ficou tenso por alguns dias. Cauê caiu em desgraça. Bebeu e usou muita droga
para “esquecer”, segundo ele próprio, a vadia da Michele.
Mas o destino é impiedoso e não escolhe esse ou aquele vai morrer.
Apenas faz a sua parte e dá novos contornos às histórias de vida das pessoas,
indistintamente.
A polícia novamente invadiu o morro. Desta vez veio com o apoio do
Exército. Homens bem treinados portando armas de grosso calibre subiram as ruas
do morro em busca de traficantes, drogas e de armas.
No confronto, morreram Cauê e Lúcio, o “Ferrugem”. Muitos quilos
de droga foram encontrados. Armas e munição pesada. Coletes à prova de bala.
Os jornais deram destaque principalmente à ação coordenada entre
as duas forças de segurança pública.
Michele soube da morte de ambos. Não deu importância e sequer
chorou segundo uma amiga íntima. Tinha ganhado dos dois rapazes muitos
presentes. Era jovem e bonita. E só precisava encontrar outro rapaz apaixonado
para ter uma vida boa, cheia de regalias e de segurança, principalmente de
segurança, algo tão escasso nos dias de hoje!

Nenhum comentário:
Postar um comentário