quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Galo Matreiro - Crônica


Imagine um galo. Mas não um galo qualquer. Um galo imponente. Grande. Vistoso. O bico pontiagudo. Penas coloridas. Umas na cor preta. Ouras na cor de terra. Outras ainda na cor branca. Todas com aquele brilho parecendo a verniz. As papas no pescoço e a crista na cabeça, bem avermelhadas, davam-lhe um ar ainda mais imponente. Também tinha “esporas” enormes e bem afiadas nas canelas robustas.  Seu reduto era um espaço de alguns metros quadrados num Sítio no bairro da “Boa Vereda”. Um bom caminho para aqueles que preferem ainda os ares do campo. Um lugar recheado de mistérios.  Diz à lenda que um cavaleiro de capa longa preta e chapéu cavalgam por aquele lugar durante as madrugadas. E há quem jure ter visto o tal cavaleiro apeando do seu cavalo e indo em direção à capela de Santo Expedito. Para que? Ninguém se atreve a dizer ou comentar... Também tem um ribeirão que percorre corta todos os Sítios por onde passa. E todos aproveitam dessa benesse. Afinal, em dias de calor, as crianças divertem-se em suas águas frescas e cristalinas. Também é usado para irrigar as hortas; para dar de beber as Vacas; Cavalos; Patos... Além, é claro, dos animais selvagens, como Juritis; Garças; Pacas... e tantos outros. Dona Dita mora lá há muitos anos. Faz a comida para toda família no velho fogão à lenha feito de barro. E seus pratos são um sucesso. O bolo de fubá; a galinha caipira com polenta; o café que fica num bule sobre a chapa de ferro quente; os refogados de abobrinha; a Cambuquira... Os doces de abóbora; de moranga com coco; e tantas delícias que ela aprendera com mãe ainda quando menina. De criação simples, D. Dita aprendeu cedo a cuidar da lida da casa. A preparar pratos gostosos. A costurar. A ter paciência com crianças pequenas. A ser uma mulher dedicada à família como sua mãe fora por toda sua vida... Nas madrugadas há silêncio na escuridão. E o silêncio é quebrado em partes distintas, ora pelo som das águas do ribeirão; ora pelo pio das corujas... Pelo mugido de uma vaca desatenta... Quiçá pelo relinchar do cavalo azarão... Mas o mais provável é que o silêncio seja quebrado pelo cantar de um galo matreiro... Mas o galo, o velho galo cantador, vivia num mundo de modos antigos. Não entendia de certas coisas modernas que apareciam aqui e acolá, mexendo e remexendo naquele velho bairro cheio de histórias e de lendas e de pessoas comuns... Numa manhã de um dia destes qualquer estava o galo a ciscar pelos caminhos Boa Vereda, mas eis que surge um veículo escolar e atropela o galináceo. Não lhe fizeram enterro descente. Tampouco lhe fizeram orações. Na verdade ele ficou estirado no chão com o corpo todo amassado pelo peso do tal veículo... As noites na Boa Vereda não são mais as mesmas. O silêncio da madrugada é eterno e sufocante. Nada é capaz de substituir o som do gargarejar daquele velho galo matreiro. Dizem os mais velhos, aqueles que conheciam o velho galo, que ele ainda está lá enfiado nas matas das encostas daquele lugar. E que, se ficar bem quietinho, logo pela manhã, é possível ouvi-lo cantando...

            





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