Imagine
um galo. Mas não um galo qualquer. Um galo imponente. Grande. Vistoso. O bico
pontiagudo. Penas coloridas. Umas na cor preta. Ouras na cor de terra. Outras
ainda na cor branca. Todas com aquele brilho parecendo a verniz. As papas no
pescoço e a crista na cabeça, bem avermelhadas, davam-lhe um ar ainda mais
imponente. Também tinha “esporas” enormes e bem afiadas nas canelas robustas. Seu reduto era um espaço de alguns metros
quadrados num Sítio no bairro da “Boa Vereda”. Um bom caminho para aqueles que
preferem ainda os ares do campo. Um lugar recheado de mistérios. Diz à lenda que um cavaleiro de capa longa preta
e chapéu cavalgam por aquele lugar durante as madrugadas. E há quem jure ter
visto o tal cavaleiro apeando do seu cavalo e indo em direção à capela de Santo
Expedito. Para que? Ninguém se atreve a dizer ou comentar... Também tem um
ribeirão que percorre corta todos os Sítios por onde passa. E todos aproveitam
dessa benesse. Afinal, em dias de calor, as crianças divertem-se em suas águas
frescas e cristalinas. Também é usado para irrigar as hortas; para dar de beber
as Vacas; Cavalos; Patos... Além, é claro, dos animais selvagens, como Juritis;
Garças; Pacas... e tantos outros. Dona Dita mora lá há muitos
anos. Faz a comida para toda família no velho fogão à lenha feito de barro. E
seus pratos são um sucesso. O bolo de fubá; a galinha caipira com polenta; o
café que fica num bule sobre a chapa de ferro quente; os refogados de
abobrinha; a Cambuquira... Os doces de abóbora; de moranga com coco; e tantas
delícias que ela aprendera com mãe ainda quando menina. De criação
simples, D. Dita aprendeu cedo a cuidar da lida da casa. A preparar pratos
gostosos. A costurar. A ter paciência com crianças pequenas. A ser uma mulher
dedicada à família como sua mãe fora por toda sua vida... Nas madrugadas há
silêncio na escuridão. E o silêncio é quebrado em partes distintas, ora pelo
som das águas do ribeirão; ora pelo pio das corujas... Pelo mugido de uma vaca
desatenta... Quiçá pelo relinchar do cavalo azarão... Mas o mais provável é que
o silêncio seja quebrado pelo cantar de um galo matreiro... Mas o galo, o velho
galo cantador, vivia num mundo de modos antigos. Não entendia de certas coisas
modernas que apareciam aqui e acolá, mexendo e remexendo naquele velho bairro
cheio de histórias e de lendas e de pessoas comuns... Numa manhã de um dia
destes qualquer estava o galo a ciscar pelos caminhos Boa Vereda, mas eis que
surge um veículo escolar e atropela o galináceo. Não lhe fizeram
enterro descente. Tampouco lhe fizeram orações. Na verdade ele ficou estirado
no chão com o corpo todo amassado pelo peso do tal veículo... As noites na Boa
Vereda não são mais as mesmas. O silêncio da madrugada é eterno e
sufocante. Nada é capaz de substituir o som do gargarejar daquele velho galo
matreiro. Dizem os mais velhos, aqueles que conheciam o velho
galo, que ele ainda está lá enfiado nas matas das encostas daquele lugar. E
que, se ficar bem quietinho, logo pela manhã, é possível ouvi-lo cantando...
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