É segunda e está chovendo
torrencialmente. São 23h00min. Na favela, um dos barracos feitos de caibro,
pedaços de telhas de amianto, placas de propaganda de um político qualquer da
eleição passada, e outros materiais encontrados nos entulhos da vida, escondem
um temido traficante de drogas. Alguém bate à porta. Um jovem de classe alta,
bem trajado, apesar de estar respingado pela chuva, surge na penumbra do
barraco e está acompanhado de dois comparsas do traficante. O jovem está
segurando uma bolsa. Ele a abre e mostra certa quantia de dinheiro ao traficante.
Este por sua vez apanha uma peça em formato de tijolo com dimensões um pouco
maiores. Ambos nada dizem um ao outro. Sequer os comparsas esboçam dizer
qualquer coisa que seja. Então o jovem vira-se e sai...
Terça feira. 14h30min. A
chuva cessou por alguns instantes. E a garota aproveita para levar o cachorro
ao passeio. Ela não precisa sair de casa, pios está numa mansão de jardim
gigantesco e bem arborizado. O cão refestela-se. Há espaço, grama aparada e
verdinha, flores de várias espécies, algumas coloridas e outras apenas
esbanjando suas folhas coloridas. Após as chuvas as gotículas de água escorrem
pelas folhas e pingam lentamente como conta gotas de um frasco de remédio. Por
trás dos arbustos, próximo de uma cachoeira artificial que fica nos fundos do
jardim, uma cobra desliza sobre as pedras sem fazer alarde... Novamente a chuva
cai.
Quarta feira. Por volta de
15h02min. A motocicleta segue pela via expressa da cidade em alta
velocidade. A distância a ser percorrida, para ela, nada importava naquele
momento, tampouco se estava a mais de cem quilômetros por hora, nada disso. Ela
queria mesmo era sentir a brisa do verão. Queria era correr contra o tempo.
Queria o ardor do ar batendo em seu corpo desprotegido que estava de roupas
adequadas e de equipamentos de segurança individuais. – Dane-se! Ela pensou. Por uma fração de
segundos ela pensou no ex-marido, nas crianças, duas meninas, uma com seis e
outra com três aninhos. Pensou no emprego e na casa. Pensou numa deliciosa
barra de chocolate. Por uma fração de segundos pensou que poderia escapar da
chuva...
Quinta feira logo após o
almoço. Deitado em sua cama e já com idade bem avançada, ele aproveita o
horário para descansar. Enquanto descansa tem um sonho. “Ele é bem mais jovem.
Está com os cabelos longos e usa um cavanhaque. Acompanhado de uma bela mulher
ele caminha pelas ruas da cidade. Por onde passa as pessoas reparam no casal.
Ela também usa cabelos longos, possui olhos grandes e negros. Ambos usam vestes
de um tempo em que os jovens buscavam mais liberdade. Liberdade para poder
demonstrar seus sentimentos. Liberdade para expressar suas ideais. Liberdade
para escolher seus próprios caminhos.” De repente ele acorda, os pingos da
chuva batem na janela incansavelmente...
Sexta feira. O dia amanhece chovendo. Há nuvens escuras
por toda a cidade. O serviço de meteorologia aparece na TV e avisa que o final
de semana será de chuva em todo o Estado, que virão seguidas de rajadas de
vento e de trovoadas e relâmpagos. Nas imagens da TV o repórter está com uma
capa de chuva e com botas apropriadas. O trânsito, sendo ele, está caótico.
Diversos pontos da cidade estão com alagamentos. Áreas de encosta estão sendo
monitoradas pelos responsáveis, pois há risco iminente de desabamentos, com
prováveis feridos e mortos. Os serviços de emergência estão em alerta máximo... Na
favela, um dos barracos feitos de caibro, pedaços de telhas de amianto, placas
de propaganda de um político qualquer da eleição passada...

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