Restaurantes
são ótimos lugares para se observar as pessoas. Não que eu queira ficar olhando
quem come assim ou assado, diga-se. Mas é tanto trejeito; tantas as formas e
caras e bocas que se fundem neste delicioso lugar de gastronomia e de pesquisa
científica que é quase impossível não aproveitar desta benesse.
Estava
eu a almoçar, ou melhor, tomar um lanhe num restaurante de um Supermercado
local quando me deparei com a cena de uma bela mulher em seu momento de
mastigação.
A bela
devia ter entre 40 e 50 anos de idade. Estatura mediana. Cabelos negros longos,
até a altura do meio das costas e bem escovados. Pele morena. Usava Jeans.
Sapato de salto. E uma bata num tom de vinho meio clara. Definitivamente uma
bela mulher.
E lá
estava eu observando a mulher a sorver seus alimentos com toda graça e todo
encanto dignos de uma Dama.
De
repente, uma garfada num bocado de comida. Incrivelmente levados na altura dos
lábios sem derramar sequer um grão de arroz. A abertura da boca parecia
sincronizada com o abrir dos olhos e com os cabelos, cuja franja caíra
levemente para frente. Os maxilares forçando os dentes a triturar a comida
dentro da boca. E mesmo assim ela mantinha o batom intacto. E ainda sorria com
os olhos para o “maledeto” que estava sentado à sua frente. Um careca com cara
de mafioso. Jeito de mafioso. E vestido qual mafioso... ”Maledeto”.
Mas a
pior parte ainda estava por vir. Foi quando fui obrigado a ver a bela sorver
seu suco de laranja. O copo estava um pouco à frente do prato e tinha uma pedra
de gelo e um canudinho colorido. Pois ela pegou o copo com a mão direita e, com
a mão esquerda, o canudinho colorido. Pareceu-me mesmo que estava vendo tudo
aquilo em câmera lenta. O copo com suco de laranja e gelo e o canudinho lentamente
indo em direção àqueles lábios grossos e vermelhos. Depois do encontro entre os
lábios e o canudinho, o sorver do líquido, e as bochechas que estavam relaxadas
agora tinham que esforçarem-se para ajudar a puxar o suco.
E a
tortura estava longe de seu término. Pois esses restaurantes ainda servem a tal
sobremesa. E a ela não iria deixar de provar um belo pedaço de pudim, óbvio.
Então se levanta. Vai até o local onde estão as sobremesas. E, para minha
surpresa, nada pega.
As
horas foram passando. Meu lanche feito de bagueta, com cenoura ralada, alface,
tomate e peito de peru ainda estavam pela metade. Acho que fiquei tão alucinado
em vê-la comendo que esqueci completamente de cuidar de mim mesmo.
Voltei
a comer.
Quando
levantei e fui até o caixa para pagar o que havia consumido, percebi que na
fila, na minha frente, estava a tal morena.
Estranho
dizer isso, mas em pé, parada agora em minha frente, não me
pareceu tão interessante olhar para ela. Refleti brevemente sobre isso! Acho que a cena daquela bela mulher comendo surpreendeu-me por uns
instantes, mais nada. Como quando você vai ao Shopping Center e fica olhando as
vitrines e babando por produtos inatingíveis...
Mas
como agora já estávamos indo, entrando numa fila tão comum a todos que lá estavam, tudo voltou ao normal. Pude então perceber que a ilusão que criei foi um deleite! Apenas por alguns minutos!

querido amigo keijo...
ResponderExcluirtambém acho que restaurantes são lugares maravilhosos para degustação, sabores e delícias... sejam culinárias, sejam das relações
com os outros, observações... a única ressalva é um questionamento quanto aos lugares idealizados que, muitas vezes, colocamos o outro... Não acho isso bom nem mau, apenas questionável!... de qualquer forma, é sempre muito saboroso ler seus escritos. abração
marcellu