Ainda
outro dia quando ia ao trabalho passei por uma rua onde havia sacos de lixo
amontoados num canto da calçada próximo do poste de energia elétrica. Com
certeza, estavam ali para que os coletores de lixo os retirassem. E o que me
chamou a atenção para aqueles sacos de lixo na calçada era o fato de estarem
“cobertos” de pombas. Em busca de comida as tais pombas bicavam aqui e acolá. E
a cena me pareceu um tanto surreal.
Afinal,
eu sempre vira cães em busca de alimento nos sacos de lixo e não pombas. Bem,
passei a fazer reflexões sobre aquela imagem inusitada e fiquei mesmo
arrependido por não estar portando a minha câmera fotográfica, pois iria
registrar aquele momento, afinal, não é sempre que se depara com certas cenas
nesta vida... Deixando a questão das fotos de lado, a cena me pareceu
emblemática, pois crer que seja uma cena bem ao modo dos novos tempos... As
mudanças, por mais que saibamos que irão acontecer, sempre mexem conosco. Deixem-nos por vezes aflitos. Às vezes
nos revigoram às vezes nos deixam em frangalhos, são mudanças! Não imaginava
que um dia pudesse ver um grupo de pombas buscando alimento num amontoado de
sacos de lixo. Mas eu também não imaginava até onde iriam meus estudos; que ia
ter habilitação para dirigir um carro ou uma moto; não imaginava que ia gostar
tanto de boteco e de cerveja gelada; de internet; de almoçar em restaurantes
com os amigos; de fazer caminhadas aos sábados logo de manhãzinha! ...A gente
se surpreende com o futuro!Quando eu tinha a tenra idade, morávamos no mesmo
bairro em que moro até hoje, só que em outra rua, outra casa. Lá, lembro-me,
havia muitas pombas. Elas vinham aos bandos buscar alimentos nos arrabaldes do
galinheiro que minha mãe tinha. Aliás, era de lá que vinham os ovos e
até os frangos para o sustento da família. E eu acho que as galinhas e frangos
não se importavam muito em dividir comida com as pombas, afinal, era uma época
tão difícil, que todos acabavam se ajudando de um jeito ou de outro; homens e animais...
Era uma época em que tudo era complicado e não havia as regalias que hoje se tem...
Lembro-me que a mãe guardava pedaços de carne em latas de banha de porco para
que não se estragassem, pois não havia geladeira. Não havia TV. Refrigerante
era apenas no final de ano. A mãe comprava mantimentos para nossa casa em Armazéns
e eu me recordo que muitas coisas eram vendidas a granel, como por exemplo,
arroz; feijão; macarrão; óleo de cozinha, água sanitária... Naquela época havia
um Matadouro Municipal. Era o responsável por abastecer os Açougues da cidade. Imaginem
a precariedade tanto do Matadouro quanto dos Açougues! Não havia uma Vigilância
Sanitária para exigir a observância de normas e técnicas de higiene no manuseio
dos produtos como se tem hoje. A nossa casa também não tinha forro e os malditos
pernilongos vinham aos montes passar à noite comigo e meus irmãos... Malditos
pernilongos! No pátio da escola onde eu estudei as primeiras séries também
vinham pombas buscar alimentos e eu me recordo que nós até corríamos atrás
delas para tentar pegá-las, porém sempre sem êxito, óbvio. As pombas, como
muitos animais, buscam Alimento, Água e Abrigo. Dizem até que é o famoso
triângulo da vida. E aí, para você acabar com estas aves, caso seja necessário,
bastaria obstruir o acesso delas o um desses elementos. Na necessidade as pombas procuram
outros locais para sua subsistência. Se lhes tiram qualquer um desses elementos
e a sobrevivência fica comprometida voam até onde haja novamente aquilo de que
precisam... Talvez as nossas mudanças possam ser encardas assim também... Uma
vez que se nos tirassem algo de que muito precisamos para sobreviver,
incomodados, ou postos de lado num determinado momento da vida, bastaria que
fôssemos buscar a nossa água; o abrigo e o alimento em outro lugar... Mudanças
são necessárias e, assim como as pombas, temos, por vezes, que alçar vôos mais
distantes para encontrar nosso espaço... Como as pombas, buscamos a
sobrevivência, acima de tudo!

Keijo, parabéns pela iniciativa, como eu disse certa feita num dos meus textos que só existimos na presença dos leitores, sem eles nossa escrita fica vazia. Neste Blog você poderá exercitar com mais intensidade a arte de escrever para alguém e não mais só pra si mesmo. Mais uma vez parabéns e boa sorte meu doce e querido Keijo.
ResponderExcluirGraça.
Graça querida...
ResponderExcluirÉ de você que eu esperava uma palavra sequer! Um alento!
Estou bem afastado eu bem sei!
Mas, creia, não me esqueço de você!
Valeu o apoio!
Adoro você...faz tempo!
Beijão!
PRESENTE :
ResponderExcluirQuintais
Há tanta beleza, esconderijos
e mistérios nos quintais...
Nas fachadas não.
Os quintais
Contam segredos e o jeito de ser do dono
Que arquitecto nenhum põe no papel..
As fachadas não.
Os quintais
têm personalidade de filho do avô, do neto...
eles têm alma... poesia...
As fachadas não.
Nos quintais muitas vezes há o ganha pão,
Numa horta, galinheiro, varais,
Oficina e porão...
Nas fachadas não.
Os quintais não têm pretensões,
não são esnobes,
não se pintam...
Eles têm aconchego, calor, conteúdo.
As fachadas não.
Nos quintais
há mais suspense...
O proibido dá sensação...
Mora o cachorro, o rato,
o coelho, a cobra, o pato
e há o pulo do gato... ladrão!
Nas fachadas não.
Os quintais
inspiram antigos bate-papos,
assuntos sérios, cochichos e opiniões.
As fachadas não.
Os quintais
se estreitam se unem entre si,
aparam quinas e arestas
como se dessem as mãos.
As fachadas não.
Os quintais dão sombra e água fresca,
dão abacate, paz, laranja, mamão,
dão ainda tranqüilidade...
alface, chuchu e limão...
As fachadas não.
Os quintais
são descobertos desnudos...
São terra, adubo, luar e chão.
Recebem chuvas sementes e orvalhos...
As fachadas não.
Os quintais
têm tesouros guardados,
têm balanços e brinquedos bem brincados!
Neles, o verde, de improviso,
cresce solto... livre... desalinhado...
As fachadas não.
Os quintais
são verdadeiros, disformes, tortos...
Têm entulhos... bagulhos...
lixos... pardais...
As fachadas não.
Os quintais
não se aprontam para visitas
nem se mostram curiosos.
Dão festas só para os amigos...
As fachadas não.
Os quintais
têm fogão de lenha, com chaminé.
Teia de aranha, carvão...
têm samambaias e avencas espontâneas...
As fachadas não.
Os quintais
não se reformam...
são relíquias intocáveis
onde um degrau, um banco,
uma escada de pedra
alguém que não mais existe, fez.
As fachadas não.
Os quintais
mais que do patrão,
eles são dos empregados...
Há serestas, seresteiros,
redes franjadas, violão...
As fachadas não.
Nos quintais
as fantasias nossas de cada dia
e a nossa infância é resguardada...
As lembranças brincam a ciranda do tempo
e morrem de medo de assombração...
Nas fachadas não.
Nos quintais me basto!
ResponderExcluirNas fachadas não!
E continua assim, acho que logo, logo vai dar num livro.
ResponderExcluirBeijos
Graça.