quarta-feira, 7 de março de 2012

Pombas - Crônica



Ainda outro dia quando ia ao trabalho passei por uma rua onde havia sacos de lixo amontoados num canto da calçada próximo do poste de energia elétrica. Com certeza, estavam ali para que os coletores de lixo os retirassem. E o que me chamou a atenção para aqueles sacos de lixo na calçada era o fato de estarem “cobertos” de pombas. Em busca de comida as tais pombas bicavam aqui e acolá. E a cena me pareceu um tanto surreal.
 Afinal, eu sempre vira cães em busca de alimento nos sacos de lixo e não pombas. Bem, passei a fazer reflexões sobre aquela imagem inusitada e fiquei mesmo arrependido por não estar portando a minha câmera fotográfica, pois iria registrar aquele momento, afinal, não é sempre que se depara com certas cenas nesta vida... Deixando a questão das fotos de lado, a cena me pareceu emblemática, pois crer que seja uma cena bem ao modo dos novos tempos... As mudanças, por mais que saibamos que irão acontecer, sempre mexem conosco.    Deixem-nos por vezes aflitos. Às vezes nos revigoram às vezes nos deixam em frangalhos, são mudanças! Não imaginava que um dia pudesse ver um grupo de pombas buscando alimento num amontoado de sacos de lixo. Mas eu também não imaginava até onde iriam meus estudos; que ia ter habilitação para dirigir um carro ou uma moto; não imaginava que ia gostar tanto de boteco e de cerveja gelada; de internet; de almoçar em restaurantes com os amigos; de fazer caminhadas aos sábados logo de manhãzinha! ...A gente se surpreende com o futuro!Quando eu tinha a tenra idade, morávamos no mesmo bairro em que moro até hoje, só que em outra rua, outra casa. Lá, lembro-me, havia muitas pombas. Elas vinham aos bandos buscar alimentos nos arrabaldes do galinheiro que minha mãe tinha.      Aliás, era de lá que vinham os ovos e até os frangos para o sustento da família. E eu acho que as galinhas e frangos não se importavam muito em dividir comida com as pombas, afinal, era uma época tão difícil, que todos acabavam se ajudando de um jeito ou de outro; homens e animais... Era uma época em que tudo era complicado e não havia as regalias que hoje se tem... Lembro-me que a mãe guardava pedaços de carne em latas de banha de porco para que não se estragassem, pois não havia geladeira. Não havia TV. Refrigerante era apenas no final de ano. A mãe comprava mantimentos para nossa casa em Armazéns e eu me recordo que muitas coisas eram vendidas a granel, como por exemplo, arroz; feijão; macarrão; óleo de cozinha, água sanitária... Naquela época havia um Matadouro Municipal. Era o responsável por abastecer os Açougues da cidade. Imaginem a precariedade tanto do Matadouro quanto dos Açougues! Não havia uma Vigilância Sanitária para exigir a observância de normas e técnicas de higiene no manuseio dos produtos como se tem hoje. A nossa casa também não tinha forro e os malditos pernilongos vinham aos montes passar à noite comigo e meus irmãos... Malditos pernilongos! No pátio da escola onde eu estudei as primeiras séries também vinham pombas buscar alimentos e eu me recordo que nós até corríamos atrás delas para tentar pegá-las, porém sempre sem êxito, óbvio. As pombas, como muitos animais, buscam Alimento, Água e Abrigo. Dizem até que é o famoso triângulo da vida. E aí, para você acabar com estas aves, caso seja necessário, bastaria obstruir o acesso delas o um desses elementos. Na necessidade as pombas procuram outros locais para sua subsistência. Se lhes tiram qualquer um desses elementos e a sobrevivência fica comprometida voam até onde haja novamente aquilo de que precisam... Talvez as nossas mudanças possam ser encardas assim também... Uma vez que se nos tirassem algo de que muito precisamos para sobreviver, incomodados, ou postos de lado num determinado momento da vida, bastaria que fôssemos buscar a nossa água; o abrigo e o alimento em outro lugar... Mudanças são necessárias e, assim como as pombas, temos, por vezes, que alçar vôos mais distantes para encontrar nosso espaço... Como as pombas, buscamos a sobrevivência, acima de tudo!



5 comentários:

  1. Keijo, parabéns pela iniciativa, como eu disse certa feita num dos meus textos que só existimos na presença dos leitores, sem eles nossa escrita fica vazia. Neste Blog você poderá exercitar com mais intensidade a arte de escrever para alguém e não mais só pra si mesmo. Mais uma vez parabéns e boa sorte meu doce e querido Keijo.
    Graça.

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  2. Graça querida...
    É de você que eu esperava uma palavra sequer! Um alento!
    Estou bem afastado eu bem sei!
    Mas, creia, não me esqueço de você!
    Valeu o apoio!
    Adoro você...faz tempo!
    Beijão!

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  3. PRESENTE :
    Quintais
    Há tanta beleza, esconderijos
    e mistérios nos quintais...
    Nas fachadas não.

    Os quintais
    Contam segredos e o jeito de ser do dono
    Que arquitecto nenhum põe no papel..
    As fachadas não.

    Os quintais
    têm personalidade de filho do avô, do neto...
    eles têm alma... poesia...
    As fachadas não.

    Nos quintais muitas vezes há o ganha pão,
    Numa horta, galinheiro, varais,
    Oficina e porão...
    Nas fachadas não.

    Os quintais não têm pretensões,
    não são esnobes,
    não se pintam...
    Eles têm aconchego, calor, conteúdo.
    As fachadas não.

    Nos quintais
    há mais suspense...
    O proibido dá sensação...
    Mora o cachorro, o rato,
    o coelho, a cobra, o pato
    e há o pulo do gato... ladrão!
    Nas fachadas não.

    Os quintais
    inspiram antigos bate-papos,
    assuntos sérios, cochichos e opiniões.
    As fachadas não.

    Os quintais
    se estreitam se unem entre si,
    aparam quinas e arestas
    como se dessem as mãos.
    As fachadas não.

    Os quintais dão sombra e água fresca,
    dão abacate, paz, laranja, mamão,
    dão ainda tranqüilidade...
    alface, chuchu e limão...
    As fachadas não.

    Os quintais
    são descobertos desnudos...
    São terra, adubo, luar e chão.
    Recebem chuvas sementes e orvalhos...
    As fachadas não.

    Os quintais
    têm tesouros guardados,
    têm balanços e brinquedos bem brincados!
    Neles, o verde, de improviso,
    cresce solto... livre... desalinhado...
    As fachadas não.

    Os quintais
    são verdadeiros, disformes, tortos...
    Têm entulhos... bagulhos...
    lixos... pardais...
    As fachadas não.

    Os quintais
    não se aprontam para visitas
    nem se mostram curiosos.
    Dão festas só para os amigos...
    As fachadas não.

    Os quintais
    têm fogão de lenha, com chaminé.
    Teia de aranha, carvão...
    têm samambaias e avencas espontâneas...
    As fachadas não.

    Os quintais
    não se reformam...
    são relíquias intocáveis
    onde um degrau, um banco,
    uma escada de pedra
    alguém que não mais existe, fez.
    As fachadas não.

    Os quintais
    mais que do patrão,
    eles são dos empregados...
    Há serestas, seresteiros,
    redes franjadas, violão...
    As fachadas não.

    Nos quintais
    as fantasias nossas de cada dia
    e a nossa infância é resguardada...
    As lembranças brincam a ciranda do tempo
    e morrem de medo de assombração...
    Nas fachadas não.

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  4. Nos quintais me basto!
    Nas fachadas não!

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  5. E continua assim, acho que logo, logo vai dar num livro.
    Beijos
    Graça.

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